Espanha 0x0
Holanda
Até o início dessa Copa, os clichês da
bola incluíam apenas sete nações no seleto grupo que poderia ser
considerado favorito ao título mundial por já
possuírem tal relíquia em suas
fileiras. Aliás, eram seis até os uruguaios relembrarem ao mundo o
peso de sua camisa, recuperando o prestígio que gastaram com anos
de ostracismo. A Itália, atual campeã e única equipe capaz de
igualar o número de conquistas do recordista Brasil, sucumbiu logo
na 1ª fase, assim como a França, 2ª colocada em 2006 e último país
a entrar para o exclusivo grupo de campeões mundiais. Os ingleses
se classificaram para as oitavas com muita dificuldade e aí deram o
azar de esbarrar na jovem equipe alemã, que posteriormente
eliminaria a Argentina.
Jogando mais bola do que todos esses
figurões, Espanha e Holanda (os dois países que mais se aproximavam
do status de grande seleção, mesmo sem nunca terem conquistado o
torneio) chegaram a final da
primeira Copa disputada em continente africano, ganhando a chance
de exorcizar definitivamente o estigma de "amarelão", apelação
recorrente entre seus detratores. Após faturar o título europeu, a
Fúria ingressou no
torneio como favorita e esperando confirmar o otimismo daqueles que
consideravam a equipe madura o suficiente para fazer história na
África do Sul. Perspectiva abalada logo na estreia, após a derrota
para os suíços. Dali em diante os comandados de Del Bosque deixaram
de lado o espetáculo, para adotar uma conduta objetiva, impondo
sempre seu ritmo de constante troca de passes baseada
principalmente em um meio-campo recheado de operários (como Xavi e
Iniesta), além de um atacante (Villa) que viu sua estrela brilhar
ao longo da competição.
Os holandeses também sobravam em seu
continente há um bom tempo,
uma realidade que acabou
ofuscada na Euro 2008 pela Rússia (em dia inspiradíssimo de
Arshavin), mas que não poderia ser negada após a campanha
extremamente convincente nas eliminatórias e o excelente desempenho
nos amistosos de preparação para esse mundial. Os 100% de
aproveitamento obtidos no qualificatório europeu se repetiram na
Copa, onde o país também assumiu uma postura mais cautelosa, porém
não menos eficiente. E depois de fazer o suficiente para se
classificar com sobras em uma chave tranquila e eliminar a
"azarona" Eslováquia nas oitavas, a Oranje se consolidou como
postulante ao título depois de eliminar com méritos a trupe de
Dunga.
O problema é que no jogo dessa tarde,
ambos os finalistas pareciam ter se esquecido da fórmula
responsável pelo sucesso no
torneio, preferindo resguardar-se em uma forte marcação (muitas
vezes truculenta) ao invés de tomar a iniciativa. Conivente, o
árbitro Howard Webb insistia em conversar, permitindo que entradas
cada vez mais ríspidas se sucedessem em campo. Uma emblemática
voadora de De Jong no peito de Xabi Alonso ilustrou perfeitamente
esse contexto, repetido diversas vezes ao longo dos 120
minutos.
Com uma partida tão amarrada, o placar só
poderia ser inaugurado em um mero detalhe. Dominando a posse de
bola, a Espanha poderia ter criado tal
acaso, não fosse a
inconsistência ofensiva de um setor que contava com o ascendente
Pedrito (que apesar de promissor, não parecia maduro suficiente
para começar jogando uma decisão) e um apagado Villa. Pior do que
isso: em um descuido da defesa, a Fúria quase viu o rival abrir a
contagem em um lance onde Casillas mostrou todos os méritos que
Robben não teve. O atacante do Bayern de Munique também pediu
pênalti em outra boa chance no decorrer da peleja, depositando
todas as suas frustrações na reclamação com a arbitragem (em jogada
corretamente ignorada pela arbitragem, que ainda lhe valeu um
cartão pelos excessos).
Villa também desperdiçou ótima chance no
decorrer dos 90 minutos, assim como Sergio Ramos, que fez
grande partida, mas cabeceou por
cima uma grande chance de marcar o gol do título. Veio a
prorrogação e a superioridade latina (que não lhe valeu nada
durante a etapa regulamentar) começou a se sobressair frente ao
cansaço da Oranje.
Nesse momento, a qualidade do elenco espanhol também fez toda
diferença, já que enquanto Vicente Del Bosque pode contar com
Fábregas ou Torres para mudar a cara do time, Bert van Marwijk teve
de se contentar com o tímido Elia ou o limitado
Braafheid.
Melhor na partida, a Fúria teve boa chance de marcar
com Fábregas (que apesar da fama, nunca se firmou como titular da
seleção), mas
Stekelenburg foi bem,
confirmando seu nome entre os melhores goleiros dessa Copa. Sem
recursos, a Holanda teve de apelar, até que finalmente alguém
acabou expulso na final com maior número de cartões da história. E
quem pagou o pato foi Heitinga. Aproveitando-se da vantagem
numérica, os espanhóis cresceram nos minutos finais e acabaram
recompensados após uma finalização do incansável Iniesta muito
questionada pelos adversários, que pediam erroneamente impedimento
no lance. Um gol que finalmente confirmava um destino tão
perseguido pela Espanha na história das Copas. Destino esse que
insiste em trair os holandeses.
O fato mais importante após o apito final
é que nesse mundial prosperou quem se preocupou em jogar bola. Quem
entendeu que um pingo de talento em meio a cautela tática que beira
a covardia pode fazer toda diferença. O que nos remete a esperança
de que dias melhores virão...
Confira a ficha da
partida:
Holanda 0x0
Espanha (*Na prorrogação, Espanha
1x0)
Local:
Estádio
Soccer City (Johanesburgo).
Árbitro:
Howard Webb (ING).
Público:
84.490
pessoas.
Gol:
Iniesta
aos 11’/2T da prorrogação (Espanha)
Cartões
amarelos: Van Persie, Van
Bommel, De Jong, Van Bronckhorst, Heitinga, Robben, Van der Wiel e
Mathijsen (Holanda); Sergio Ramos, Puyol, Capdevilla, Iniesta e
Xavi (Espanha).
Cartão
vermelho: John Heitinga
(Holanda) aos 4'/2T da prorrogação.
Holanda:
1-
Stekelenburg, 2- Van der Wiel, 3- Heitinga, 4- Mathijsen e 6- Van
Bronckhorst (15- Braafheid aos 14’/1T da prorrogação); 5- De
Jong (23- Van der Vaart aos 8’/1T da prorrogação), 6- Van
Bommel e 10- Sneijder; 7- Kuyt(17- Elia aos 25’/2T), 11-
Robben e 9- Van Persie. Técnico: Bert van
Marwijk.
Espanha:
1-
Casillas, 15-Sergio Ramos, 3- Piqué, 5- Puyol e 11- Capdevilla;
16-Sergio Busquets, 14-Xabi Alonso (10-Cesc Fábregas aos
41’/2T), 6- Iniesta e 8-Xavi; 18-Pedro (22-Jesús Navas aos
14’/2T) e 7-David Villa (9-Fernando Torres no intervalo da
prorrogação). Técnico: Vicente Del
Bosque.
Melhores em campo:
Iniesta
(Espanha) e Sneijder (Holanda).
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decisão
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