O Campeonato Brasileiro assiste a uma transição em sua estrutura desde a adoção do sistema de pontos corridos, manifestada de diversas formas ao longo dos últimos anos, inclusive na estrutura de suas equipes.
De fato, a 1ª divisão ainda não atingiu a visibilidade (veja bem, não estamos falando do nível técnico) de ligas como a inglesa ou a espanhola, mas ao menos essas mudanças já refletem positivamente na Serie B nacional, que vem ganhando a credibilidade necessária entre o grande público para se tornar uma competição atraente (e por que não, rentável?).
Prova disso é a transmissão acessível à TV aberta (embora em muitas cidades a Rede TV ainda seja um canal fechado), além do glamour de sempre contar com algum “gigante” como principal protagonista. Fluminense, Botafogo, Palmeiras, Grêmio, Atlético Mineiro, Corinthians e agora o Vasco (mais do que a metade entre os chamados “12 grandes”) são figurões que já frequentaram a segundona e sabem muito bem como funciona essa realidade.
E embora a média de público da atual edição ainda decepcione (a média do 1º turno foi de apenas 5.659 torcedores por jogo), o nível técnico do torneio tem empolgado aqueles que o acompanham com mais atenção. Para situar aqueles que se interessam pelo tema, vamos a um balanço do que anda rolando pelos gramados da Serie B:
O favorito:
A história de grandes clubes na 2ª divisão é quase sempre a mesma: começa no “fundo do poço” e termina em “redenção”. Com o Vasco não poderia ser diferente. Apostando em um elenco modesto e no trabalho do competente Dorival Júnior, a equipe de São Januário sequer classificou-se para as finais do estadual no início da atual temporada, embora a eliminação diante do Corinthians (que posteriormente se tornaria o campeão) nas semifinais da Copa do Brasil fosse um forte indício de que o clube estava no caminho certo para prosperar em seu objetivo mais óbvio...
E o início na Série B não poderia ser mais
animador: nas três primeiras
partidas foram seis gols
marcados e nenhum sofrido, com direito a 100% de aproveitamento.
Acontece que na sequência o time emperrou, sem marcar gols em cinco
partidas, além de acumular uma série de sete jogos sem vencer. Para
conforto do torcedor, tudo não passou de um período de
instabilidade e com o respaldo da diretoria e a manutenção da
comissão técnica, logo o Vasco voltou aos eixos, estruturado em um
elenco que mistura a eficiência de alguns remanescentes (como o
zagueiro Vílson, o volante Amaral e o meia Alex Teixeira), nomes
menos badalados (como o goleiro Fernando Prass, o lateral Paulo
Sérgio, o volante Nilton e o atacante Élton), além do ímpeto de
jovens revelações (como o volante Souza, o atacante Robinho ou a
“jóia” Philippe Coutinho, que já está negociado com a
Inter de Milão há um bom tempo!). Mas a grande estrela do time é
sem dúvida o meia Carlos Alberto, que após algumas passagens ruins
pelos últimos clubes onde passou, parece ter reencontrado seu
melhor futebol pelos lados de São
Januário.
A arrancada no desfecho do 1º turno foi acompanhada pelo torcedor, que compareceu em massa nas arquibancadas. Tanto que na partida contra o Ipatinga, válida pela 19ª rodada, 76.211 vascaínos lotaram o Maracanã, quebrando o recorde de público da série B (que pertencia ao Atlético Mineiro), além de estabelecer o maior público entre todas as divisões do Campeonato Brasileiro 2009. Após atingir a liderança, o clube terminou o turno com três pontos de vantagem em relação à concorrência (atualmente essa vantagem praticamente dobrou), fazendo crer que o título é questão de tempo (não por acaso, diversos técnicos da Série B afirmam que esse ano são apenas três vagas, já que uma delas já é vascaína).
Alguém aí vai discordar?
Postulantes ao G-4:
Longe de seus melhores dias,
o Guarani começou a temporada
sendo rebaixado no campeonato paulista, chegando a Série B como uma
grande incógnita (para não dizer candidato a mais um rebaixamento).
Porém, sob a batuta do rodado Oswaldo Alvarez e com uma base
formada por jogadores pouco badalados, que se destacaram jogando
por clubes do interior durante o estadual (os atacantes Caíque e
Ricardo Xavier, contratados respectivamente junto a Oeste e Ituano,
são alguns exemplos), mesclada a jovens valores (como o arqueiro
Douglas e o lateral Maranhão) e atletas mais experientes (casos de
Walter Minhoca e Adriano Gabiru), o conjunto deu liga, liderando o
1º turno durante várias rodadas. Na reta final o Bugre passou a
oscilar em campo, refletindo algumas limitações em seu elenco,
embora tenha se mantido no G-4 a base de muita superação e com o
apoio incondicional se sua fiel torcida. Apesar de ninguém saber ao
certo de onde vem o dinheiro que anda mantendo a estrutura do
Guarani, é inegável que ele esteja sendo bem-vindo pelos lados do
Brinco de Ouro (que quase foi leiloado em 2009)... E pode ser
determinante para recolocar o campeão nacional de 1978 na elite do
Brasileirão!
Outra equipe que se
destaca na briga pelo acesso é o Atlético/GO, que
também reflete o investimento no
departamento de futebol que recolocou o clube na briga por
objetivos maiores. Após a perda da hegemonia estadual e a saída de
PC Gusmão, a diretoria foi buscar de volta Mauro Fernandes, que por
sua vez manteve a base que prosperou no ano passado. E se perdeu
alguns de seus destaques, ao menos soube repor a altura (como no
caso do zagueiro Gil, que rumou para o Cruzeiro, mas foi
substituído por Antônio Carlos, ex-Atlético/PR). O pilar da equipe
está alicerçado no goleiro Márcio (que também cobra faltas e
pênaltis), nos meias Agenor, Pituca e Anaílson, além da dupla de
atacante formada por Juninho e Marcão (responsáveis pelo ataque
mais positivo do torneio). Porém, uma nova mudança na comissão
técnica (Arthur Neto assumiu o comando após a saída de Mauro
Fernandes) em meio à reta final da competição coloca uma
interrogação nas possibilidades do Dragão nessa Série
B...
E se PC Gusmão acabou não dando
certo pelos lados do Atlético/GO no começo do ano, quem agradece
são os torcedores do Ceará, que assistiram o
treinador iniciar uma guinada na situação do Vovô nesse campeonato.
Após um início cambaleante (que custou o emprego do técnico Zé
Teodoro), o alvinegro firmou-se na tabela emendando uma série de
cinco vitórias consecutivas, exalando regularidade e chegando
rapidamente ao G-4. Os maiores trunfos do clube para retornar a
elite do futebol nacional (de onde está afastado desde 1993) são os
componentes defensivos (os cearenses possuem a defesa menos vazada
até aqui), onde se destacam o goleiro Lopes (que nunca se firmou no
Botafogo, mas já conquistou a torcida em Fortaleza) e um meio-campo
pegador (onde os volantes Heleno, Michel e João Marcos correm pelo
experiente meia Geraldo), além de uma dupla de ataque
experimentada, composta por Wellington Amorim e Mota (que chegou a
ser cotado por Luxemburgo no Santos).
Outras equipes que
também rondam a zona de acesso são Figueirense,
Portuguesa e São Caetano. Os
catarinenses começaram muito bem o torneio, mas alguns resultados
negativos acabaram deixando o clube de fora do G-4 nesse 1º turno.
Por isso a diretoria não mediu esforços para trazer reforços
tarimbados que ajudem o Figueira a retornar a vitrine do futebol
nacional. Os volantes Roberto Brum (relegado a 2º plano no Peixe
após a chegada de Luxemburgo) e Ricardo Bóvio (que chega do futebol
árabe), além do atacante Jean Coral (ex-Botafogo) são alguns dos
exemplos nesse sentido. Somados ao ímpeto de pratas da casa (como o
lateral Lucas, o volante Anderson Luis e o atacante Rafael Coelho,
artilheiro do certame e um dos maiores destaques desse 1º turno) e
a experiência de alguns medalhões remanescentes (casos do goleiro
Wilson, dos meio-campistas Jeovânio e Fernandes, além do atacante
Schwenk), eles podem fornecer ao alvinegro os ingredientes
necessários para uma receita de sucesso nessa reta final de
torneio.
Portuguesa
e São
Caetano, que apostaram na troca de treinadores em meio à
competição, já experimentaram efeitos distintos nessa Série B. A
Lusa sentiu em campo os reflexos das constantes mudanças em sua
comissão técnica (por onde já passaram três treinadores). Os
resultados frustrantes acabaram gerando uma crise no Canindé, que
mais uma vez assistiu aos protestos da “pequena massa
portuguesa” (o que infelizmente não é nenhuma novidade).
Porém, após a derrota para o Vila Nova, os limites foram
extrapolados de vez e conselheiros do clube invadiram os vestiários
com seguranças armados para ameaçar os jogadores. O episódio acabou
contribuindo para a saída de Edno (considerado por muitos o grande
nome da Portuguesa, mas que definitivamente não vinha jogando bem)
e Renê Simões (que assumiu no lugar de Bonamigo e cedeu lugar a
Vágner Benazzi). Desde então a Lusa tem demonstrado algum poder de
reação, apresentando maior regularidade e conquistando pontos
importantes. A experiência de Benazzi, que conhece como ninguém os
corredores do Canindé, tem sido fundamental nesse sentido.
Amenizando a pressão sobre peças fundamentais, o treinador tem
extraído melhor futebol de nomes como Marco Antonio e Fellype
Gabriel, além de oferecer a confiança necessária para reforços
importantes como Domingos e Zé Carlos, que até pouco tempo atrás
disputavam a Série A respectivamente por Santos e
Cruzeiro.
O
São Caetano, que iniciou um
processo de renovação no elenco em
meio à temporada (abrindo mão de
veteranos como Perdigão ou Tuta) e também perdeu jogadores
importantes (como o atacante Luan, negociado com o futebol
francês), sofreu com um início irregular, quando chegou a estar
ameaçado pelo rebaixamento. Porém, após a saída de Sérgio Soares e
a contratação do inexperiente Antonio Carlos Zago (na 5ª rodada), a
equipe do ABC foi se acertando aos poucos, reagindo na tabela ao
longo do 1º turno e encostando no bloco que briga para chegar ao
G-4. Além de recuperar o prestígio de bons nomes que estavam em
baixa (como o goleiro Luiz e o meia Xuxa), a aposta do ex-zagueiro
tem sido em velhos conhecidos do torcedor, como por exemplo, o
defensor Marcelo Batatais, o meio-campista Eduardo Ramos
(ex-Corinthians), além do atacante Washington (que estava no
Vitória).
Outras equipes que chegaram a oferecer esperança aos seus torcedores durante o 1º turno, mas depois acabaram não confirmando as perspectivas otimistas foram Ponte Preta, Ipatinga e Bragantino. Muito disso se deve a um fator em comum entre todas essas equipes: a irregularidade em suas exibições. No caso da Macaca, acabou pesando bastante as constantes mudanças no comando técnico, por onde já rodaram Marco Aurélio, Pintado e agora Marcio Bittencourt. Pelos lados do Vale do Aço, as oscilações têm sido constantes, a ponto de não ser nenhuma novidade o revezamento de vitórias fora de casa e derrotas dentro de seus domínios ou goleadas sofridas alternadas de goleadas aplicadas. Já em Bragança Paulista, o grande erro parece ter sido a negociação de peças fundamentais como o volante Moradei e principalmente o artilheiro Bill (ambos repassados ao Corinthians), que ao menos contrabalanceavam a idade avançada de outros destaques, como os meias Adãozinho e Sérgio Manoel.
As decepções:
Após naufragar no campeonato estadual, o Vila Nova chegou a 2ª divisão pensando em recuperar sua credibilidade, apostando em figurinhas carimbadas como os meio-campistas Cocito, Luciano Ratinho e Canindé, além dos atacantes Galvão e Vanderlei. Os resultados não vieram e consequentemente foram os treinadores quem partiram do Tigre: primeiro Gílson Kleina, depois Vágner Benazzi e por último Arthurzinho, até o interino Zé Roberto finalmente ser efetivado. O problema é que as diversas mudanças acabaram desfigurando o elenco e também minando as chances do alvirrubro brigar por objetivos maiores, como na última temporada, quando lutou até as últimas rodadas pelo acesso.
O Brasiliense, a exemplo dos últimos anos, começou bem na tabela, mantendo-se no G-4 durante algumas rodadas até começar a sentir o ritmo do campeonato. Seguindo a velha fórmula de apostar em medalhões, como Iranildo, Allann Delon, Adrianinho e Fábio Júnior (que inclusive já deixou o time), acabou faltando fôlego ao Jacaré ainda durante o 1º turno e o jeito foi contentar-se com a manutenção na zona do limbo (dividida do Z-4 por uma linha tênue). Os cariocas do Duque de Caxias têm pretensões parecidas: após estrear na Série B como um dos maiores candidatos ao descenso, o clube tem se mantido fora (porém próximo) da zona de rebaixamento graças aos gols do matador Edivaldo, que durante o 1º turno marcou 12 gols, mas atualmente sofre com as contusões.
Outras equipes
tradicionais, como Paraná,
Juventude e
Bahia,
decepcionam (e muito) devido ao
peso de suas camisas e a situação vergonhosa em que se encontram na
tabela. Os paranaenses parecem não ter aprendido com as lições do
começo de semestre, quando fizeram uma campanha discreta no
estadual. Com pouco investimento no time, o Tricolor manteve essa
base e iniciou a disputa da Série B apostando em uma equipe
relativamente jovem (para não dizer inexperiente), sentindo
rapidamente as consequências dessa medida. Vieram então reforços
para o setor ofensivo, que ainda não deram liga esperada e ainda
por cima evidenciaram a fragilidade defensiva, que persiste pelos
lados da Vila Capanema.
Gaúchos e baianos têm ainda menos
explicações para as frustrações que
vêm impondo aos seus torcedores,
afinal ambas as equipes investiram pesado visando essa disputa.
Pelos lados da Fonte Nova (ou seria do Pituaçú?) desembarcaram
vários nomes com passagens por grandes clubes do futebol nacional,
como o goleiro Marcelo e o lateral Diogo (ambos ex-Corinthians), o
zagueiro Nen (que já passou por Palmeiras e Atlético/MG), os
rodados Rubens Cardoso (lateral) e Paulo Isidoro (meia), além do
atacante Nádson (contratado junto ao arqui-rival Vitória). Mas a má
fase do time acabou custando o emprego de treinadores promissores,
como Alexandre Gallo e Sérgio Guedes, que não tiveram muita sorte
na “Boa Terra”. O
torcedor só espera que Paulo
Bonamigo dê conta do recado e ao menos livre a equipe do
rebaixamento. A mesma expectativa reside em Caxias do Sul, onde Ivo
Wortmann (um velho conhecido pelos lados do Alfredo Jaconi) conta
com a confiança da diretoria para recolocar o Juventude no caminho
das vitórias. Bons nomes (como a linha de frente, composta pela
revelação Zezinho e os experientes Mendes e Marcos Denner) não
faltam para cumprir essa missão e a contratação de reforços que
estavam na 1ª divisão (casos do goleiro Juninho, ex-Atlético/MG ou
do defensor Nenê, ex-Coritiba) só deve contribuir nesse sentido.
Mas nem por isso a situação do alviverde deixa de ser
preocupante...
Complementando as decepções desse campeonato, pode-se destacar a má fase do futebol nordestino na Série B: dos seis representantes na atual edição da 2ª divisão, cinco lutam desesperadamente contra o rebaixamento. São eles ABC, Fortaleza, América/RN e Campinense. Os gigantes potiguares refletem a falta de investimento em equipes que sequer prosperaram na disputa estadual (cujo nível técnico não é lá aquelas coisas). Para piorar ainda mais, o Diabo foi se desfazer de seu principal jogador, o meia Fábio Neves (negociado com o Fluminense). O Rubro-Negro paraibano também vai mal das pernas, ocupando a zona de rebaixamento (de onde dificilmente deverá escapar) desde as primeiras rodadas da competição. Já o Tricolor cearense também vive uma fase complicada, mesmo contando com o apoio de sua fiel torcida e os gols do artilheiro Marcelo Nicácio. Tanto que em visita ao Vaticano, o padre Fernando Chaves Reis presenteou o Papa em pessoa com uma camisa do clube. Resta saber se para uma benção ou uma extremunção...









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