Nos próximos dias, o Brasil encara um tour pela Ásia, onde enfrenta a Inglaterra (jogando no Catar!) e Omã. Antes de debochar do segundo adversário, é preciso saber que a seleção asiática vive excelente momento, já que no início do ano conquistou pela 1ª vez a Copa do Golfo (tradicional torneio entre os países do Golfo Pérsico) vencendo potências locais como Iraque (atual campeão asiático e que disputou a última edição da Copa das Confederações), Bahrein (que briga com a Nova Zelândia por um lugar no próximo Mundial), além da tradicional Arábia Saudita (que caiu nos pênaltis após empate sem gols na grande decisão). Os maiores destaques da equipe comandada pelo francês Claude Le Roy (que já comandou diversas seleções africanas como Camarões, Senegal e Gana) são o goleiro Ali Al Habsi (que atua no futebol inglês pelo Bolton) e o matador Imad Al Hosni (maior artilheiro da seleção nacional com 30 gols).
Ciente disso, aí sim se pode dizer que a partida contra Omã não representa grande perigo aos pupilos de Dunga e até abre margem para os testes propostos pelo treinador. O problema é que contra o English Team (que renasceu sob a batuta do italiano Fabio Capello) dificilmente haverá brechas para isso e apostas mais ousadas podem acabar se tornando um duro golpe na auto-estima tupiniquim (que convenhamos, anda alta até demais).
Júlio César,
Maicon, Daniel Alves, Lúcio, Juan, Luisão, Gilberto Silva, Felipe
Melo, Josué, Ramires, Elano, Kaká, Robinho, Nilmar e Luis Fabiano
só não jogam
a próxima Copa do Mundo se algo muito ruim acontecer. Presentes
constantemente nas convocações de Dunga, eles contam com total
confiança do treinador não apenas pelo futebol, mas também pela
“cumplicidade” com a filosofia de trabalho implantada
pela nova comissão técnica da seleção. Motivos que também indicam
que são grandes as chances dos “relembrados” Doni e
Júlio Baptista (atletas da Roma) se firmarem no grupo dos
garantidos, já que apesar de alguns problemas em seu clube (o
primeiro sofre com as contusões, enquanto o segundo não atravessa
grande fase), ambos os jogadores sempre tiveram moral com o
“professor” (que por sinal, peitou os dirigentes
romanistas que não queriam liberar os
atletas).
Seguindo esse
raciocínio, restariam apenas mais sete vagas no time que disputará
o mundial da África do Sul. O terceiro goleiro deve mesmo ser
Victor, que tem grandes chances de ser um dos poucos representantes
do futebol nacional na Copa. Hélton e Gomes, que atuam na Europa,
também ganharam algumas oportunidades, mas parecem não ter agradado
a
comissão técnica o suficiente
para ganhar maior sequência. Na zaga, Miranda se prejudicou com a
expulsão infantil na última partida das eliminatórias e que terá de
ser cumprida no Mundial, o que abre espaço para algumas
alternativas. E se Aléx (do Chelsea) se queimou após pedir dispensa
da Copa das Confederações, outros jogadores tem a grande chance de
cavar um lugar no time. O “gigante” Naldo parece um
forte azarão nesse sentido: firme na defesa do Werder Bremen, não é
de hoje que o rapaz nascido em Londrina e que se profissionalizou
em Caxias do Sul pelo Juventude firmou-se como um dos melhores
defensores da Bundesliga, praticando sempre um futebol vigoroso,
apoiado em 1,98 de altura e um chute extremamente violento. Estilo
que se adéqua perfeitamente ao perfil idealizado por Dunga, mas
também pode contribuir para uma defesa suplente extremamente
limitada no quesito técnico, levando-se em consideração as
características semelhantes de Luisão. Aliás, o corte do zagueiro
do Benfica também abriu espaço para Thiago Silva, que quando estava
parado era constantemente convocado, mas andava meio esquecido
desde que começou a jogar no Milan. Adaptado ao futebol italiano, o
atleta vem provando seu valor desde os tempos do Fluminense e tem
qualidade suficiente para estar entre os 23 jogadores que
disputarão a próxima Copa. Como os titulares
“incontestáveis” da posição andam sofrendo com as
contusões, atenção redobrada com o setor não faria mal
algum...
A
lateral-esquerda continua em
aberto, o
que não é segredo para ninguém. Por isso, as apostas de Dunga são
válidas e merecem crédito, mesmo que o resultado ainda não tenha
sido positivo. Fábio Aurélio agrada muitos que acompanham de perto
o futebol europeu e tem características interessantes: ao contrário
da maioria dos brasileiros, aprendeu a defender, o que é essencial
para os laterais no futebol atual. Levando em conta o constante
apoio pela direita, o ex-jogador do São Paulo não teria problemas
para se segurar, subindo apenas “na boa” e
contrabalanceando o setor. O problema é que Fábio Aurélio acabou
prejudicado pelas contusões, sendo convocado apenas posteriormente
ao ápice de suas performances (que se deram principalmente em meio
a última temporada), enquanto ainda readquire ritmo de
jogo.
A outra aposta
foi em Michel Bastos, ex-atleta de Atlético Paranaense, Grêmio e
Figueirense, que vem jogando muito bem no futebol
francês,
mas nem por isso deixa de ser
uma convocação alternativa. Desde 2006 em terras gaulesas, o atleta
tornou-se um dos principais nomes do Lille graças ao potente pé
esquerdo, extremamente calibrado quando o assunto são as bolas
paradas (um fundamento que anda enfraquecido no scratch canarinho) até se
transferir na atual temporada para o renovado time do Lyon. A
questão é que desde quando desembarcou na França, o brasileiro tem
atuado como um meio-campista, ou seja, mais a frente e sem tantas
obrigações defensivas, o que coloca em dúvida sua capacidade de se
readaptar a função de origem (mesmo que o jogador já tenha
comprovado sua capacidade no Sul do país atuando justamente na
lateral).
Pelo
meio-campo, o companheiro de Josué na reserva também provoca
dúvidas na cabeça dos torcedores. Anderson era grande aposta de
Dunga, mesmo quando não vinha obtendo grandes oportunidades no
Manchester United, mas acabou decepcionando. Atualmente, usufruindo
de maior regularidade no time de Alex Ferguson, tem sido ignorado
por
Dunga, que parece ter elegido
outro conterrâneo como favorito a vaga: o ex-gremista Lucas,
atualmente no Liverpool. Outro atleta que também começa a receber
mais oportunidades na atual temporada da Premier League, o jovem de
cabelos esguios precisa deixar de lado as atuações inseguras e
reeditar as exibições que lhe valeram uma bola de ouro nos tempos
de Olímpico se quiser carimbar seu passaporte para a África do Sul.
Fábio Simplício é mais uma novidade e só ganhou uma chance de
última hora graças à contusão de Ramires. Revelado pelo São Paulo,
o volante atua a cinco anos no futebol italiano, onde evoluiu tanto
tecnicamente quanto taticamente, tornando-se titular do Parma e
posteriormente do Palermo, seu clube atual. Um atleta que tem
características admiradas pelo capitão do tetracampeonato e pode
cair no gosto do técnico caso aproveite uma eventual
oportunidade.
O meia Alex,
ex-Inter e atualmente no futebol russo, também é outro nome que tem
grandes possibilidades de cair nas graças de Dunga. Quando saiu do
Colorado, era considerado por muitos críticos como um
dos principais atletas do
futebol nacional. Em Moscou, tornou-se rapidamente ídolo no
Spartak, continuando em evidência com o técnico brasileiro. Não é
de hoje que este nobre escriba repete que Alex tem totais condições
de desempenhar pela a esquerda a função que Elano ou Ramirez (até
mesmo Daniel Alves) executam pela direita. Não apenas por ser um
jogador extremamente polivalente, mas também devido a sua grande
consistência tática. Aliás, essa versatilidade faz de Alex uma
interessante (e desesperada) alternativa para a lateral-esquerda,
função que já ocupou com sucesso (e de improviso) nos tempos de
Internacional e que também pode ser encarada como uma carta na
manga do jogador na briga pela posição. E como Diego (que vinha bem
até se prejudicar com as contusões) e Ronaldinho Gaúcho (que tem
melhorado gradativamente), ambos atuando no futebol italiano,
parecem definitivamente fora dos planos, é bom não dar muita sopa
para o azar...
Outro
meia-esquerda que recebeu uma chance nessa série de amistosos é
Carlos Eduardo, mais um
atleta
revelado no futebol gaúcho e que atua com regularidade (e relativo
destaque) no futebol alemão. Desde o ano passado, o ex-gremista tem
sido uma das boas alternativas ofensivas do caçula Hoffenheim, que
surpreendeu em sua estréia na Bundesliga. Até por isso torna-se
inevitável uma comparação com o ex-flamenguista Renato Augusto, que
também se destaca em gramados germânicos gastando a bola pelo Bayer
Leverkusen (um dos líderes da atual temporada), mas nem por isso
foi lembrado pelo treinador (embora atualmente esteja
contundido).
No ataque, a
convocação de Hulk agradou a todos os fãs do futebol
mambembe/alternativo, onde nobres operários brilham todos os dias
em estádios espalhados pelo mundo à custa de muito suor e talento.
Mas nem por isso
deixou de ser uma contradição.
Basta ressaltar que Liédson se tornou um dos maiores atacantes do
Sporting ao longo dos últimos seis anos sem nunca ter recebido uma
chance sequer (a ponto de ter se naturalizado português,
tornando-se peça fundamental no grupo que assegurou vaga na
repescagem), enquanto o atacante do Porto foi convocado de forma
meteórica (assim como ascendeu na renovada equipe dos Tripeiros). O
oportunismo demonstrado na atual temporada portuguesa não é para
ser desprezado, embora outros atacantes brasileiros estejam jogando
tão bem (ou até mais) mundo afora, como por exemplo, Grafite (que
começa a decair no Wolfsburg) ou até mesmo Amauri (que voltou a
marcar gols na Juventus). Mas de fato, nenhum provoca tantas
expectativas nos torcedores quanto Adriano (em grande fase no
Flamengo e que conta com a simpatia de Dunga) ou Alexandre Pato
(que mesmo afastado da seleção nas últimas convocações, tem
demonstrado grande potencial no Milan).
Enfim, a contagem regressiva para o mundial já está valendo e as oportunidades para testes tendem a se tornar cada vez mais escassas. Duas partidas seguidas são uma sequência rara para aqueles que buscam um lugar ao sol da África do Sul e se o jogo contra os ingleses promete ser um teste de fogo, a partida contra Omã pode ser uma boa chance para tentar encher os olhos do treinador. Resta saber como estará o prestígio (da seleção, dos jogadores testados e de Dunga) após estes confrontos...
* Atualizando (13/09): Posteriormente a publicação desse texto, o lateral Fábio Aurélio não se apresentou a convocação, alegando uma contusão e desperdiçando uma grande chance de se firmar no grupo que vai a Copa do Mundo.

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