Para desespero do futebol europeu, tem início nesse final de semana a CAN 2010, disputada em Angola. Principais exportadores da mão-de-obra africana, os clubes do Velho Continente reclamam pelo fato da competição ser disputada de dois em dois anos e ainda por cima em janeiro, ou seja, em meio à temporada européia. O atentado terrorista ocorrido em Cabinda (uma das sedes do torneio), que vitimou fatalmente três membros da delegação togolesa (além de ferir dois atletas), coloca ainda mais em dúvida as condições do campeonato. Mas também não se pode negar que essa disputa será uma boa prévia do que as principais seleções do continente podem aprontar na Copa do Mundo da África do Sul (que, aliás, nem se classificou para a atual edição da Copa Africana de Nações). Confira uma análise dos grupos e conheça um pouco mais sobre as seleções envolvidas na disputa:
Grupo A:
Entre os integrantes dessa chave, o maior destaque fica por conta
da Argélia, única das seleções
participantes que estará no próximo mundial. Um dos grandes
responsáveis por esse feito foi o técnico Rabah Saadane, que
curiosamente
também
comandava a equipe na Copa do Mundo de 86 (última participação
argelina no torneio). Apostando em atletas experientes, que em sua
grande maioria atuam no futebol europeu, as Raposas do Deserto superaram
uma verdadeira guerra de nervos contra os egípcios nessas
eliminatórias, vencendo um jogo-extra que entrou para a história do
continente. O time possui um sólido sistema defensivo, onde se
destacam nomes como Bougherra, Yahia e Belhadj. No meio-campo, as
estrelas são Ziani e o capitão Mansouri, mas Saadane ainda busca
outras opções, dando oportunidade a atletas que se naturalizaram
recentemente, como no caso de Meghni, habilidoso meia da Lazio que
nasceu na França (passou inclusive pelas seleções de base do país),
mas é filho de argelinos. Outro atleta nas mesmas condições seria o
volante Medhi Lacen (do Racing Santander), que acabou ficando de
fora da convocação final. Esse episódio abriu uma discussão no país
sobre a necessidade ou não de se contar com
os “naturalizados”,
um fato que o técnico argelino conhece bem, já quem em 86 decidiu
levar ao mundial jogadores nas mesmas condições (Chebal, Kourichi,
Maroc e Benmabrouk). Segundo a imprensa argelina, tal atitude
dividiu o grupo na época, já que ídolos locais (como Madjer e
Belloumi) não ficaram nada satisfeitos com a medida. Atualmente, a
história estaria se repetindo e segundo alguns veículos locais, os
atletas teriam se voltado contra o técnico, fato que acabou
desmentido pela federação local. Disputas a parte, o ataque está
muito bem servido com o veterano Saïfi, além de Ghezzal e Bouazza.
Uma surpresa foi a inclusão de Ziaya, que desbancou Ghilas e
Djebbour (jogadores que disputaram a maior parte das
eliminatórias), na disputa por um lugar no
time.
Quem também tem boas chances de classificação nessa 1ª fase
é Angola, que joga em casa e
vê na competição sua única oportunidade de brilhar em 2010, já que
não obteve vaga na Copa do Mundo. Após a boa campanha no mundial da
Alemanha em 2006
(quando
vendeu cara sua derrota para Portugal e conquistou empates diante
de México e Irã), a seleção angolana ainda conseguiu chegar às
quartas-de-final da última Copa Africana de Nações. Mas de lá para
cá, entrou em declínio e nunca mais conseguiu reeditar bons
resultados. Para se ter uma idéia, se não fosse país-sede, Angola
não teria sequer se classificado para a competição, já que nas
eliminatórias caiu precocemente, ainda na 2ª fase, em um grupo
aparentemente fácil, que contava com Benin, Uganda e Niger. Após o
fracasso, a federação resolveu demitir o treinador Luís Oliveira
Gonçalves (ídolo em seu país), mas contratou um substituto a
altura. Trata-se do português Manuel José, que possui relativa
experiência no futebol africano após passagens bem-sucedidas pelo
futebol egípcio. O novo comandante aposta em um trabalho de
renovação e não por acaso, 12 dos 23 convocados farão sua estréia
em competições internacionais. Além disso, 11 atletas atuam no
futebol local, o que reforça a idéia de um time
“caseiro”. Após a aposentadoria do goleiro João
Ricardo, a meta ficou a cargo de Lama (embora Carlos
Fernandes
também dispute a posição), que
ainda conta com a proteção de Rui Marques e Kali na defesa. Mesmo
assim o setor parece ser o ponto fraco do time, ainda mais após a
confirmação das ausências do lateral Yamba Asha e do volante e
capitão André Macanga. Outras ausências importantes são Mendonça e
o veterno Figueiredo, ignorados por Manuel José na convocação
final. A responsabilidade deve recair sobre os meias Zé Kalanga
(atleta veloz e habilidoso) e Gilberto (que tem moral com o
treinador desde os tempos em que trabalharam juntos no Al Alhy). Na
frente, após a aposentadoria do ídolo Akwa, surgiram novos nomes
como Djalma e Manucho (um pouco queimados com o novo técnico devido
a atos de indisciplina), embora figurinhas carimbadas como
Mantorras e Flávio ainda façam parte do
time.
Correndo por fora, mas com boas chances, estará a seleção de
Mali,
que possui atletas de destaque nos principais clubes do futebol
europeu, mas não consegue emplacar bons resultados em
nível internacional. Nem
mesmo após a contratação do competente treinador nigeriano Stephen
Keshi, que classificou Togo para a Copa de 2006. Nas últimas
eliminatórias, os malineses começaram bem, superando equipes como
Congo e Sudão, mas na fase final acabaram sucumbindo diante de Gana
e Benin. Situação que frustrou os torcedores locais, que não devem
assistir uma de suas mais promissoras gerações na disputa de um
mundial. O que também reforça a necessidade do país desempenhar um
bom papel nesse torneio continental. Embora alguns atletas
importantes tenham ficado de fora da convocação (casos dos
defensores Adama Coulibaly e Sammy Traoré, do
meia Drissa Diakité, além do
atacante Mamady Sidibé), as principais estrelas de Mali estarão
presentes na disputa. Na defesa, o principal destaque é Diamoutene,
zagueirão com larga experiência no futebol italiano, que conta com
a proteção de dois volantes de primeiro nível: Mahamadou Diarra
(Real Madrid) e Mohamed Sissoko (da Juventus). O jovem Abdou
Traoré, que joga no Bordeaux (atual campeão francês), também é uma
boa opção. Já Seydou Keita (do Barcelona) costuma ter maior
liberdade para chegar à frente, atuando mais adiantado. No setor
ofensivo, a principal referência é o matador Kanouté, que forma
dupla de ataque com Luis Fabiano no
Sevilla.
Sem muita experiência internacional, o Malauí deve apenas fazer
figuração nessa chave. O principal trunfo na
classificação para
a disputa dessa Copa Africana de Nações esteve sem dúvida alguma no
fator casa, onde o país somou 13 dos 16 pontos conquistados durante
as eliminatórias. O maior mérito do conjunto malauiense foi
desbancar adversários reconhecidamente superiores, como a República
Democrática do Congo (ainda na 2ª fase) e Guiné (já na fase final),
em sua caminhada até a disputa do segundo torneio continental de
sua história (o primeiro foi em 1984). Para não fazer feio, o
técnico Kinnah Phiri (ex-jogador que brilhou pelo país no fim da
década de 70) aposta
em uma base concentrada no
futebol africano (principalmente em clubes locais e da África do
Sul). Um dos destaques é o capitão Mponda, defensor com mais de 60
partidas com a camisa da seleção. Os dois únicos jogadores a atuar
no futebol europeu são os atacantes Mwafulirwa (que joga na Suécia)
e Kanyenda (que na Rússia é chamado de “Mamba Negra”).
Porém, quem brilhou nas últimas eliminatórias foi o novato Msowoya
(que aos 21 anos joga no APR de Ruanda), artilheiro do time com
seis gols. Outro jovem promissor é Kamwendo, meia de 23 anos que
enverga a camisa 10 e atua no Orlando Pirates (um dos principais
clubes da África do Sul).
Grupo B:
Nenhuma chave ilustra tão bem a nomenclatura “grupo da
morte” como essa. E não pense que a expressão se refere ao
clima de Cabinda (sede que vive um momento conturbado após o ataque
promovido por rebeldes),
mas sim ao nível dos integrantes envolvidos na disputa. Dois deles
já estão garantidos na próxima Copa do Mundo e apresentam-se como
grandes candidatos ao título. O futebol praticado pela
Costa do
Marfim tem sido apontado pela
imprensa especializada como o mais vistoso do continente na
atualidade, levando muitos otimistas a crer que os Elefantes podem ser finalmente
o primeiro selecionado africano na final de um mundial. Exageros a
parte, talento é o que não falta para o conjunto marfinense, onde
apenas um dos convocados não atua no futebol europeu (no caso, o
goleiro Vincent Angban, que joga no local ASEC Mimosas). Sem nenhum
jogador contundido, o treinador bósnio Vahid Halilhodžić
se deu ao luxo de excluir da convocação atletas importantes, como
os atacantes Sekou Cissé, Romaric e Sanogo. Nem por isso deixou de
privilegiar o setor ofensivo, principal arma de sua equipe. A
estrela Drogba (candidato a
artilharia do torneio) contará
com a companhia de Salomon Kalou (seu companheiro no Chelsea), o
talismã Bakari Koné, Dindane (que volta a ser convocado com
regularidade), além da revelação Gervinho. No meio, Yaya Touré
(recentemente eleito como melhor jogador do país) é o grande
carregador de piano, enquanto o motorzinho Zokora dita o ritmo do
setor. Na defesa também figuram velhos conhecidos da torcida, como
Méïté, Boka e Demel, além dos renomados Eboué e Kolo Touré (todos
eles presentes na última Copa). Falta apenas um grande goleiro, já
que apesar de não comprometer, Barry fica devendo para antigos
titulares como Gouamené (ídolo na conquista da Copa Africana de
1992) ou Tizié (que esteve no mundial de 2006). Porém, nada que
abale o favoritismo da Costa do
Marfim...
Outra força do continente é Gana,
que ao lado do Egito foi a seleção que mais vezes chegou a decisão
do torneio. Porém, em sete participações, os ganenses conquistaram
quatro
títulos, contra seis do
rival, que atualmente detém a hegemonia continental. A edição desse
ano pode ser uma boa oportunidade de equilibrar as coisas, mas as
Estrelas Negras
precisarão superar alguns problemas internos se quiserem retornar
ao lugar mais alto do pódio (o que não ocorre desde 1982).
Recentemente, alguns jogadores não se apresentaram para a disputa
de um amistoso (entre eles Essien e Muntari, além de Gyan), o que
desagradou o treinador sérvio Milovan Rajevac. Após se recusar a
pedir desculpas, Muntari (que atua na Inter de Milão) acabou
ignorado na convocação para CAN, o que gerou grande polêmica entre
os torcedores. Isso porque o meio-campo ganês também não vai ter a
disposição outro de seus destaques: Stephen Appiah, que sofre há um
longo tempo com as contusões. Mas nem tudo são problemas, já que
Rajevac também conta com jovens revelações presentes na conquista
do último
mundial sub-20, entre eles o
goleiro Daniel Adjei, o lateral Inkoom, o volante Agyemang-Badu,
além dos atacantes André Ayew (filho do ídolo local Abedi Pelé),
Ransford Osei e Dominic Adiyiah (recentemente contratado pelo
Milan). Para liderar essa garotada, o treinador confia na rodagem
dos atletas mais experientes, entre eles o já citado Essien (que
assume o posto de capitão, mas ainda é dúvida para estréia), o
arqueiro Kingson, os defensores Eric Adoo e Sarpei, além da dupla
de ataque composta por Gyan e Amoah, todos titulares no Mundial da
Alemanha.
Já a participação do Togo
nessa Copa Africana de
Nações é uma incógnita, ainda mais após o atentado sofrido a dois
dias da estréia no torneio. O ônibus que transportava os togoleses
foi atacado por rebeldes de Cabinda quando
cruzava a fronteira entre
Congo e Angola. No episódio, os passageiros ficaram mais de 30
minutos em meio ao fogo cruzado, o que resultou na morte de três
integrantes da delegação. Dois atletas também foram atingidos: o
zagueiro Akakpo (que joga na Romênia) e o goleiro Obilalé (que atua
no futebol francês e necessita de maiores cuidados). Abalado, o
país ameaçou retirar-se da competição, mas voltou atrás no último
minuto. Como o time vai reagir após esse episódio ninguém sabe, mas
é fato que as perspectivas em relação à participação nessa CAN já
não eram das melhores. Desde a inédita classificação para a última
Copa do Mundo, os Gaviões nunca mais entraram nos
eixos e muito disso se deve a desorganização de sua federação
local. Após uma campanha irregular nessas eliminatórias, quando
quase caíram na 2º fase (diante de Zâmbia e a inexpressiva
Suazilândia), superando posteriormente o Marrocos na disputa por
uma das vagas na competição continental (em uma chave que ainda
contava com Gabão e Camarões), os dirigentes togoleses resolveram
demitir o treinador belga Jean Thissen, nomeando em cima da hora o
interino Hubert Velud. Para se ter uma idéia, nos dois últimos
anos, cinco técnicos passaram pelo comando da seleção.
Velud
causou ainda mais polêmica entre
os torcedores ao ignorar nomes experientes em sua lista, casos dos
defensores Nibombé e Tchangai, os meias Olufadé e Cherif Touré,
além do atacante Mohamed Kader (atleta com maior número de
convocações e gols com a camisa da seleção). A espinha dorsal
deverá ser composta pelo arqueiro Kossi Agassa, o defensor Mamah,
os meias Romao, Amewou e Salifou (principal referência no setor),
além dos atacantes Dossevi e Adebayor (principal esperança de
gols). Entre as caras
novas, atenção para Assimiou Touré (do Bayer Leverkusen) e Serge
Gakpé (do Monaco).
Complementando o grupo está Burkina
Faso, que pode ser
considerada a seleção mais inexperiente da chave se comparada aos
demais componentes. Sem nunca ter
participado de uma Copa do
Mundo, o país se animou com essa possibilidade nas últimas
eliminatórias, quando foi a grande surpresa do continente.
Comandados pelo português Paulo Duarte, os burquinenses
surpreenderam a Tunísia com uma das melhores campanhas da 2ª fase,
mas deram o azar de cair justamente no grupo da Costa do Marfim na
fase final. Não fossem as duas derrotas para os Elefantes, a campanha seria
irretocável, já que nos jogos diante de Malauí e Guiné, o país
obteve 100% de aproveitamento. Restou como consolo o 2º lugar do
grupo e uma vaga na CAN, a sexta participação no torneio
continental (nas últimas sete edições, Burkina Faso esteve presente
em cinco), onde quis o destino que os Garanhões cruzassem novamente o
caminho dos marfinenses. A meta agora é vingar-se do rival e quem
sabe superar a 1ª fase, fato que a seleção conseguiu uma única vez
(em 1998, quando sediou a competição e terminou em 4º lugar).
Apostando em uma equipe ofensiva,
Paulo Duarte convocou oito
atacantes para essa disputa e confia no faro de gols do matador
Dagano para surpreender. E já que o nome de Bancé (que disputa a
Bundesliga pelo Mainz) acabou ignorado nessa lista, outros como
Yaméogo, Zoundi, Issouf Ouattara ou Yssouf Koné prometem lutar pela
segunda vaga do ataque. Pelo meio, Kaboré (volante do Marseille) é
quem faz o trabalho pesado para que Pitroipa (meia do Hamburgo)
possa desfilar toda sua categoria. Na defesa, destaque para o
arqueiro titular Diakité, além dos zagueiros Moussa Ouattara (que
retorna a seleção) e Panandétiguiri (jogador do União de
Leria).
Grupo C:
Após ficar de fora da última Copa do Mundo, a
Nigéria retorna a elite do
futebol internacional em 2010 na expectativa de recuperar o
prestígio que adquiriu durante a década de 90,
quando superou em duas
oportunidades a fase de grupos do mundial (94 e 98), além de
conquistar uma medalha de ouro olímpica (96). O início da caminhada
nessas eliminatórias foi mesmo promissor: melhor campanha da 1ª
fase, as Super Águias
obtiveram 100% de aproveitamento em seus seis jogos, marcando 11
gols e sofrendo apenas um. Além disso, eliminaram a África do Sul
precocemente, tirando do país que abrigará o mundial a chance de
disputar o torneio continental. Até então tudo eram flores, mas na
fase final os nigerianos não apresentaram o mesmo desempenho e
acabaram tropeçando nas próprias pernas ao ceder um empate em casa
para a Tunísia nos minutos finais. O resultado obrigava as
Super Águias a vencer
seu último confronto fora de casa (diante do Quênia), além torcer
por um tropeço dos tunisianos contra Moçambique. E não é que o
improvável aconteceu e a classificação acabou caindo no colo dos
nigerianos?! Nem por isso o treinador Shaibu Amodu tem escapado da
pressão e levando em conta o amadorismo dos dirigentes locais, não
seria surpresa se seleção mudasse a comissão técnica as vésperas da
Copa em caso de fracasso nessa CAN. Apesar de escalar uma equipe
ofensiva, o
treinador é acusado de não
estabelecer um esquema de jogo, deixando a nação a mercê de suas
estrelas. Com todos os convocados atuando fora do país, os maiores
destaques ficam por conta do goleiro Enyema (considerado o melhor
jogador do futebol israelense em 2009), os defensores Yobo e Taiwo
(que tem um potente chute de perna esquerda), os meias Olofinjana e
Obi Mikel, além dos atacantes Martins (herói da classificação que
Amodu insiste em deixar no banco), Yakubu, Odemwingie, Obinna e
Kanu (figurinha carimbada na seleção). Na última hora, Eneramo
acabou cedendo lugar a Obasi, em um setor que não irá contar com
Makinwa (da Lazio) e o contundido Ikechukwu Uche
(Zaragoza).
Atual bicampeão africano e maior vencedor na história da
competição, o Egito
mais uma vez sofreu
com a sina de sucumbir nas eliminatórias para o mundial e acabou
deixando escapar a
classificação em uma
tumultuada decisão diante dos argelinos. O fracasso não apenas
tirou dos Faraós a
chance de estar na próxima Copa do Mundo como pode ter colocado fim
a uma das mais vitoriosas gerações do futebol egípcio nas últimas
décadas. Alguns nomes importantes serão graves desfalques para o
time de Hassan Shehata nessa competição, como os meias Barakat e
Aboutrika (que acabaram se contundindo) ou a dupla de ataque
formada por Mido e Amr Zaki (ambos do Zamalek), que foi ignorada
pelo treinador. Porém, não se pode esquecer a força que o país tem
dentro de seu continente, motivo que coloca os egípcios entre os
favoritos a mais uma conquista. Na Copa das Confederações do ano
passado, apesar de não passar da 1ª fase, a seleção endureceu
diante de rivais tradicionais, vendendo cara sua derrota para o
Brasil, além de aprontar para cima da Itália. Os maiores trunfos
dos Faraós
concentram-se na experiente defesa, onde figuram peças importantes
como os veteranos
El-Hadary (goleiro), Hany Saïd,
Gomaa e El Saka (ambos zagueiros), além dos laterais Fathy e
Moawad, todos jogando com regularidade na seleção há um bom tempo.
No meio-campo, a responsabilidade de ditar o ritmo do time deve
ficar por conta do capitão Ahmed Hassan, embora a participação de
coadjuvantes como Ghaly e Hosny também seja fundamental nesse
sentido. Shawky, que atua no futebol inglês, foi outro atleta que
acabou de fora da convocação, para desespero dos torcedores. O
ataque é o setor mais enfraquecido, mas ainda conta com jogadores
de alto nível, como Zidan (que atua na Bundesliga) e Moteab, que
devem formar a dupla titular. Resta saber se o Egito terá forças
para faturar mais uma Copa Africana de Nações em sua
história...
Correndo por fora, na expectativa de surpreender os favoritos,
estão duas seleções emergentes. Uma delas é Moçambique, que sob o comando do
holandês Mart Nooij apresentou
grande
evolução e obteve resultados notáveis nas últimas eliminatórias.
Embora o começo tenha sido irregular (principalmente nas partidas
em casa), a classificação em um grupo que ainda contava com a Costa
do Marfim (além de Madagascar e Botsuana) foi muito comemorada
pelos adeptos moçambicanos, que durante muitos anos assistiram seus
principais jogadores se naturalizarem por Portugal (Eusébio é um
caso emblemático nesse sentido, embora em sua época o país ainda
fosse uma colônia lusitana). Na fase final, os Mambas assimilaram as lições e
cresceram de produção, dessa vez fazendo valer o fator casa, onde
permaneceram invictos diante de seleções tradicionais como Nigéria
e Tunísia (além do Quênia), apostando sempre em um corajoso esquema
ofensivo. Os resultados não foram suficientes para lutar pela
inédita classificação a Copa, mas garantiram a equipe em sua 4ª
disputa continental (nos anos 80 e 90 a seleção teve participações
discretas no torneio, sendo sempre eliminada na 1ª fase). A base da
equipe é formada por atletas que atuam no futebol africano (a
maioria joga na liga local e na África do Sul) e os poucos
jogadores que atuam na Europa curiosamente não se
concentram
em Portugal (o defensor Mexer é
o único a jogar na Liga Sagres). No gol, Kapango desbancou o antigo
titular Marcelino (que sequer foi convocado), enquanto a defesa
conta com bons valores, entre eles o versátil Simão Junior, jovem
promissor de apenas 21 anos que atua no Panathinaikos. Os laterais
Fanuel e Paíto, além do zagueiro Dario Khan, complementam o setor
(Miro também pode aparecer no time titular). Pelo meio, nomes como
Genito, Hagi e Mano costumam correr para que o habilidoso Domingues
(ídolo do Mamelodi Sundowns, uma das principais equipes
sul-africanas) tenha maior liberdade para jogar. Mas a grande força
de Moçambique está no ataque, onde figuram dois ídolos locais: o
capitão Tico-Tico, além de Dario, maior artilheiro e jogador que
mais vezes vestiu a camisa de seu
país.
A outra surpresa da chave é o Benin, considerado por
muitos uma das maiores zebras nas últimas eliminatórias. Sem grande
representatividade internacional até então, o país
melhorou muito durante a última
década, quando conseguiu classificar-se para suas únicas
participações na disputa continental. Porém, tanto em 2004 quanto
em 2008, os beninenses acabaram eliminados na fase de grupos. A
perspectiva é superar esse quadro na atual edição da CAN, ainda
mais após os excelentes resultados conquistados nesse
qualificatório. Após eliminar Niger, Uganda e a favorita Angola na
2ª fase, os Esquilos
caíram em um grupo complicado ao lado de Gana, Mali e Sudão,
adversários reconhecidamente mais experientes. Mas dentro de campo,
o que se viu foi uma equipe voluntariosa, sem nenhum grande
destaque individual, mas apresentando grande força coletiva. Dessa
forma, Benin conseguiu impor-se, garantindo o 2º lugar do grupo. O
sonho de estrear em mundiais acabou não se concretizando, mas os
torcedores já se deram por satisfeitos ao ficar entre os primeiros
60 colocados do ranking da FIFA, a frente de potências do
continente como África do Sul e Marrocos. A base da
equipe comandada pelo francês
Michel Dussuyer (ex-goleiro de Cannes e Nice durante os anos 80 e
90) é composta pelo jovem arqueiro Djidonou (de 23 anos), o
defensor Chrysostome (que joga no futebol turco), os meias Ahouéya
(do Sion) e Sessegnon (atleta do PSG), além do atacante Omotoyossi
(que atua no Metz). Porém não se pode ignorar o serviço de
operários como Adenon, Boco, Tchomogo, Ogunbiyi e Mickaël Poté, que
também costumam figurar no time titular. Entre as ausências na
lista de Dussuyer, o maior desfalque é o de Adjamossi (que joga na
Espanha). O treinador ainda tentou convencer Jonathan Tinhan
(nascido na França, mas com ascendência beninense) a defender os
Esquilos, mas não foi
bem sucedido nessa iniciativa.
Grupo D:
Primeira seleção africana a se classificar para as quartas-de-final
de uma Copa do Mundo, Camarões nem de longe lembra
aquele futebol alegre e o ofensivo apresentado no mundial de 90.
Pelo contrário, com um
esquema que privilegia a forte marcação, os Leões Indomáveis
atualmente fazem valer o vigor físico de seus atletas, mas nem por
isso perderam em competitividade. Ainda mais após a chegada do
treinador francês Paul Le Guen, que assumiu a equipe em um momento
delicado e conseguiu contornar essa situação. Após ficarem de fora
da última Copa (perdendo a classificação de forma dramática,
diga-se de passagem), os camaroneses (então comandados por Otto
Pfister) estrearam bem nas eliminatórias, superando com sobras uma
chave que ainda contava com Cabo Verde, Tanzânia e Maurício. Porém,
na fase seguinte o time passou a oscilar, acumulando resultados
negativos e se complicando diante de Gabão, Togo e Marrocos.
Motivos que levaram a cartolagem local a demitir Pfister na reta
final da disputa para só depois constatar que o interino Thomas
N’Kono não daria conta do recado. Em meio a esse pesadelo, Le
Guen assumiu o comando e em pouco tempo impôs sua filosofia de
trabalho, conquistando sucessivas vitórias, assumindo a ponta da
tabela e garantindo o passaporte para o mundial africano. Apesar de
não realizar grandes mudanças na base titular, o técnico conseguiu
modificar a mentalidade de seu conjunto, que assimilou bem a
proposta do francês. Na baliza, Kameni está entre os melhores
goleiros da liga espanhola e é garantia de segurança. A defesa
sofreu desfalques importantes com as contusões de dois atletas do
Tottenham (o zagueiro Bassong e o lateral-esquerdo Assou-Ekotto),
mas ainda mescla a juventude de N'Koulou (que aos 19 anos é um dos
mais promissores atletas do Monaco) e a experiência de Rigobert
Song
(caminhando para a disputa de
sua oitava CAN). Enquanto isso, atletas renomados, como Atouba e
Womé, parecem fora dos planos. No meio, o veterano Geremi tem a
companhia de operários como Alexandre Song (Arsenal), M’Bia
(Marseille), Emana (Lyon) e Makoun (Real Betis). O jovem Joel
Matip, que joga no Schalke 04 e tem apenas 18 anos, é uma das
apostas, embora enfrente problemas burocráticos para se apresentar
a seleção. Outro desfalque será M’Bami, jogador do Almería da
Espanha. Na frente, Webó é o coadjuvante perfeito para que a
estrela Samuel Eto’o (agora capitão do time) possa brilhar. E
é confiando nos gols do artilheiro que os Leões Indomáveis sonham
em voltar ao topo do futebol africano. O único problema de Le Guen
é não ter substitutos a altura de sua dupla de ataque
titular.
E se os camaroneses são candidatos ao lugar mais alto do pódio,
a Tunísia precisa se cuidar para
não ser uma das grandes decepções dessa Copa
Africana de Nações. Após a
tragédia das eliminatórias, o futebol do país entrou em parafuso e
o atual momento é de crise. Comandada por Humberto Coelho, as
Águias de Cartago
complicaram-se já na 2ª fase, sendo superados pela Burkina Faso e
se classificando graças ao índice técnico. Na fase final, os
tunisianos caíram na chave da Nigéria (que havia realizado a melhor
campanha da fase anterior) e após dois empates frente a esse rival,
chegaram à última rodada na liderança do grupo, dependendo apenas
de si para garantir a vaga na Copa. Porém, uma derrota nos minutos
finais contra Moçambique colocou fim ao sonho do país, que esperava
disputar seu quarto mundial consecutivo. O fracasso resultou na
demissão de Coelho, substituído por Faouzi Benzarti, que já havia
comandado a Tunísia em 1994 e estava na seleção líbia. Apesar de
contar com a simpatia dos nativos, o
novo técnico iniciou seu
trabalho apostando em um processo de renovação. A convocação para o
torneio abriu mão de jogadores experientes (como Jaidi, Ben Frej,
Jemmali, Nafti e Mnari, que atuam no futebol europeu), além de
excluir dois dos principais atletas tunisianos na atualidade: o
meia Selim Benachour (afastado da seleção há um bom tempo) e o
atacante Chikhaoui (que sofre com as contusões). Outras ausências
sentidas serão a de jovens talentos como Belaid e Ben Yahia. Com
tantas baixas, os resultados nos amistosos de preparação não foram
nada satisfatórios, colocando em dúvida as possibilidades das
Águias de Cartago na
competição. A esperança recai sobre os pés do zagueirão Haggui e
dos integrantes do setor ofensivo: os meias Ben Saada e Darragi,
além dos atacantes Jemâa e Chermiti. Será o
suficiente?
Quem está de olho em uma das vagas do grupo é a seleção de
Zâmbia, que apesar de já ter
disputado 13 vezes o torneio continental, nunca conseguiu um
título. Além disso, desde 1998 os
Chipolopolo não conseguem
superar a fase de grupos, caindo precocemente em cinco
oportunidades desde então. Nas eliminatórias, a equipe chamou a
atenção por concluir a 2ª fase na frente do Togo (presente no
mundial de 2006), além de iniciar a fase final obtendo grandes
resultados, como o empate fora de casa contra os egípcios logo na
estréia e a vitória diante de Ruanda na rodada seguinte, o que lhe
valeu a liderança parcial do grupo. Porém, no decorrer do
qualificatório os zambianos não apresentaram a mesma consistência
(principalmente no ataque, que marcou apenas dois gols), sendo
superados por Argélia e Egito na corrida por um lugar ao sol da
África do Sul. Nenhuma novidade para uma nação que apesar de
possuir relativa tradição no futebol de seu continente, nunca
conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo. A expectativa é
que agora a
seleção faça ao menos valer sua
força em âmbito continental. A federação local aposta no trabalho
do francês Hervé Renard, que está no cargo desde o início das
eliminatórias e tem tido estabilidade para trabalhar, algo raro
tanto aqui quanto acolá. Alguns resultados nos recentes amistosos
de preparação, como a vitória por 4x2 diante da Coréia do Sul,
encheram de confiança o torcedor, cujos principais ídolos são os
irmãos Katongo: o meia Felix, que joga no Mamelodi Sundows, além de
Christopher, atacante do Arminia Bielefeld. A inspiração dessa
dupla vai ser determinante para as chances dos Chipolopolo, que também contam
com bons coadjuvantes, casos do goleiro Mweene, os defensores
Dennis Banda, Musonda e Mbola (de apenas 16 anos), o meia Kalaba
(do União de Leiria), além dos atacantes Jacob Mulenga (que atua no
futebol holandês) e Mbesuma
(ex-Portsmouth).
Outra grande surpresa dessas eliminatórias africanas foi o
Gabão, que surpreendeu na
2ª fase ao se garantir em uma chave que contava com
Gana e Libía, além de ser uma das
sensações da fase final, quando caiu no “grupo da
morte” ao lado de potências como Camarões, Marrocos e Togo.
Treinados pelo ex-jogador francês Alain Giresse e apoiados em uma
jovem equipe, os gabonenses chegaram a liderar o grupo e sonhar com
a inédita vaga ao mundial, mas nos momentos decisivos pecaram pela
inexperiência, principalmente diante dos camaroneses, que venceram
os dois confrontos diretos e ficaram com a vaga para Copa do Mundo.
Mesmo assim não se pode desprezar os resultados obtidos pelos
Panteras Negras, que
agora pretendem fazer um bom papel no torneio continental. Durante
as três vezes em que conseguiu a classificação para
CAN (a primeira delas em 94), o
Gabão só conseguiu superar a 1ª fase uma única vez (em 96, quando
caiu nas quartas) e desde 2000 nunca mais tinha disputado o
campeonato. Ao contrário do que muitos imaginam os grandes trunfos
da equipe não se resumem ao faro de gols do atacante Daniel Cousin
(que joga no Hull City). Giresse também deposita muita confiança em
valores como seu arqueiro Ovono ou os defensores Ecuele Manga,
Akouassaga e Moïse Brou, todos atuando no futebol francês, assim
como os meias Kessany e N’Guéma. O treinador ainda aposta na
rodagem de Mbanangoye e Moubamba, atletas mais experientes e que
costumam ditar o ritmo entre a defesa e o ataque. Na frente, a
maior arma é a velocidade de novatos como Roguy Méyé e
Pierre-Emerick Aubameyang (duas das grandes revelações do país),
embora Mouloungui e Fabrice Do Marcolino costumem ser opção
frequente para o 2º tempo.
PS: Até a publicação deste conteúdo, a federação togolesa ainda não havia decidido definitivamente se abandonava (ou não) a disputa da Copa Africana de Nações 2010.









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