Home Data de criação : 08/08/18 Última atualização : 10/03/01 09:36 / 144 Artigos publicados
 

Guia da Copa Africana de Nações 2010:  (Seleções) escrito em domingo 10 janeiro 2010 14:22

Copa Africana de Nações 2010

Para desespero do futebol europeu, tem início nesse final de semana a CAN 2010, disputada em Angola.  Principais exportadores da mão-de-obra africana, os clubes do Velho Continente reclamam pelo fato da competição ser disputada de dois em dois anos e ainda por cima em janeiro, ou seja, em meio à temporada européia. O atentado terrorista ocorrido em Cabinda (uma das sedes do torneio), que vitimou fatalmente três membros da delegação togolesa (além de ferir dois atletas), coloca ainda mais em dúvida as condições do campeonato. Mas também não se pode negar que essa disputa será uma boa prévia do que as principais seleções do continente podem aprontar na Copa do Mundo da África do Sul (que, aliás, nem se classificou para a atual edição da Copa Africana de Nações). Confira uma análise dos grupos e conheça um pouco mais sobre as seleções envolvidas na disputa:

Grupo A:

Entre os integrantes dessa chave, o maior destaque fica por conta da Argélia, única das seleções participantes que estará no próximo mundial. Um dos grandes responsáveis por esse feito foi o técnico Rabah Saadane, que curiosamente também comandava a equipe na Copa do Mundo de 86 (última participação argelina no torneio). Apostando em atletas experientes, que em sua grande maioria atuam no futebol europeu, as Raposas do Deserto superaram uma verdadeira guerra de nervos contra os egípcios nessas eliminatórias, vencendo um jogo-extra que entrou para a história do continente. O time possui um sólido sistema defensivo, onde se destacam nomes como Bougherra, Yahia e Belhadj. No meio-campo, as estrelas são Ziani e o capitão Mansouri, mas Saadane ainda busca outras opções, dando oportunidade a atletas que se naturalizaram recentemente, como no caso de Meghni, habilidoso meia da Lazio que nasceu na França (passou inclusive pelas seleções de base do país), mas é filho de argelinos. Outro atleta nas mesmas condições seria o volante Medhi Lacen (do Racing Santander), que acabou ficando de fora da convocação final. Esse episódio abriu uma discussão no país sobre a necessidade ou não de se contar com os “naturalizados”, um fato que o técnico argelino conhece bem, já quem em 86 decidiu levar ao mundial jogadores nas mesmas condições (Chebal, Kourichi, Maroc e Benmabrouk). Segundo a imprensa argelina, tal atitude dividiu o grupo na época, já que ídolos locais (como Madjer e Belloumi) não ficaram nada satisfeitos com a medida. Atualmente, a história estaria se repetindo e segundo alguns veículos locais, os atletas teriam se voltado contra o técnico, fato que acabou desmentido pela federação local. Disputas a parte, o ataque está muito bem servido com o veterano Saïfi, além de Ghezzal e Bouazza. Uma surpresa foi a inclusão de Ziaya, que desbancou Ghilas e Djebbour (jogadores que disputaram a maior parte das eliminatórias), na disputa por um lugar no time.

Quem também tem boas chances de classificação nessa 1ª fase é Angola, que joga em casa e vê na competição sua única oportunidade de brilhar em 2010, já que não obteve vaga na Copa do Mundo. Após a boa campanha no mundial da Alemanha em 2006 (quando vendeu cara sua derrota para Portugal e conquistou empates diante de México e Irã), a seleção angolana ainda conseguiu chegar às quartas-de-final da última Copa Africana de Nações. Mas de lá para cá, entrou em declínio e nunca mais conseguiu reeditar bons resultados. Para se ter uma idéia, se não fosse país-sede, Angola não teria sequer se classificado para a competição, já que nas eliminatórias caiu precocemente, ainda na 2ª fase, em um grupo aparentemente fácil, que contava com Benin, Uganda e Niger. Após o fracasso, a federação resolveu demitir o treinador Luís Oliveira Gonçalves (ídolo em seu país), mas contratou um substituto a altura. Trata-se do português Manuel José, que possui relativa experiência no futebol africano após passagens bem-sucedidas pelo futebol egípcio. O novo comandante aposta em um trabalho de renovação e não por acaso, 12 dos 23 convocados farão sua estréia em competições internacionais. Além disso, 11 atletas atuam no futebol local, o que reforça a idéia de um time “caseiro”. Após a aposentadoria do goleiro João Ricardo, a meta ficou a cargo de Lama (embora Carlos Fernandes também dispute a posição), que ainda conta com a proteção de Rui Marques e Kali na defesa. Mesmo assim o setor parece ser o ponto fraco do time, ainda mais após a confirmação das ausências do lateral Yamba Asha e do volante e capitão André Macanga. Outras ausências importantes são Mendonça e o veterno Figueiredo, ignorados por Manuel José na convocação final. A responsabilidade deve recair sobre os meias Zé Kalanga (atleta veloz e habilidoso) e Gilberto (que tem moral com o treinador desde os tempos em que trabalharam juntos no Al Alhy). Na frente, após a aposentadoria do ídolo Akwa, surgiram novos nomes como Djalma e Manucho (um pouco queimados com o novo técnico devido a atos de indisciplina), embora figurinhas carimbadas como Mantorras e Flávio ainda façam parte do time.

Correndo por fora, mas com boas chances, estará a seleção de Mali, que possui atletas de destaque nos principais clubes do futebol europeu, mas não consegue emplacar bons resultados em nível internacional. Nem mesmo após a contratação do competente treinador nigeriano Stephen Keshi, que classificou Togo para a Copa de 2006. Nas últimas eliminatórias, os malineses começaram bem, superando equipes como Congo e Sudão, mas na fase final acabaram sucumbindo diante de Gana e Benin. Situação que frustrou os torcedores locais, que não devem assistir uma de suas mais promissoras gerações na disputa de um mundial. O que também reforça a necessidade do país desempenhar um bom papel nesse torneio continental. Embora alguns atletas importantes tenham ficado de fora da convocação (casos dos defensores Adama Coulibaly e Sammy Traoré, do meia Drissa Diakité, além do atacante Mamady Sidibé), as principais estrelas de Mali estarão presentes na disputa. Na defesa, o principal destaque é Diamoutene, zagueirão com larga experiência no futebol italiano, que conta com a proteção de dois volantes de primeiro nível: Mahamadou Diarra (Real Madrid) e Mohamed Sissoko (da Juventus). O jovem Abdou Traoré, que joga no Bordeaux (atual campeão francês), também é uma boa opção. Já Seydou Keita (do Barcelona) costuma ter maior liberdade para chegar à frente, atuando mais adiantado. No setor ofensivo, a principal referência é o matador Kanouté, que forma dupla de ataque com Luis Fabiano no Sevilla.

Sem muita experiência internacional, o Malauí deve apenas fazer figuração nessa chave. O principal trunfo na classificação para a disputa dessa Copa Africana de Nações esteve sem dúvida alguma no fator casa, onde o país somou 13 dos 16 pontos conquistados durante as eliminatórias. O maior mérito do conjunto malauiense foi desbancar adversários reconhecidamente superiores, como a República Democrática do Congo (ainda na 2ª fase) e Guiné (já na fase final), em sua caminhada até a disputa do segundo torneio continental de sua história (o primeiro foi em 1984). Para não fazer feio, o técnico Kinnah Phiri (ex-jogador que brilhou pelo país no fim da década de 70) aposta em uma base concentrada no futebol africano (principalmente em clubes locais e da África do Sul). Um dos destaques é o capitão Mponda, defensor com mais de 60 partidas com a camisa da seleção. Os dois únicos jogadores a atuar no futebol europeu são os atacantes Mwafulirwa (que joga na Suécia) e Kanyenda (que na Rússia é chamado de “Mamba Negra”). Porém, quem brilhou nas últimas eliminatórias foi o novato Msowoya (que aos 21 anos joga no APR de Ruanda), artilheiro do time com seis gols. Outro jovem promissor é Kamwendo, meia de 23 anos que enverga a camisa 10 e atua no Orlando Pirates (um dos principais clubes da África do Sul).

Grupo B:

Nenhuma chave ilustra tão bem a nomenclatura “grupo da morte” como essa. E não pense que a expressão se refere ao clima de Cabinda (sede que vive um momento conturbado após o ataque promovido por rebeldes), mas sim ao nível dos integrantes envolvidos na disputa. Dois deles já estão garantidos na próxima Copa do Mundo e apresentam-se como grandes candidatos ao título. O futebol praticado pela Costa do Marfim tem sido apontado pela imprensa especializada como o mais vistoso do continente na atualidade, levando muitos otimistas a crer que os Elefantes podem ser finalmente o primeiro selecionado africano na final de um mundial. Exageros a parte, talento é o que não falta para o conjunto marfinense, onde apenas um dos convocados não atua no futebol europeu (no caso, o goleiro Vincent Angban, que joga no local ASEC Mimosas). Sem nenhum jogador contundido, o treinador bósnio Vahid Halilhodžić se deu ao luxo de excluir da convocação atletas importantes, como os atacantes Sekou Cissé, Romaric e Sanogo. Nem por isso deixou de privilegiar o setor ofensivo, principal arma de sua equipe. A estrela Drogba (candidato a artilharia do torneio) contará com a companhia de Salomon Kalou (seu companheiro no Chelsea), o talismã Bakari Koné, Dindane (que volta a ser convocado com regularidade), além da revelação Gervinho. No meio, Yaya Touré (recentemente eleito como melhor jogador do país) é o grande carregador de piano, enquanto o motorzinho Zokora dita o ritmo do setor. Na defesa também figuram velhos conhecidos da torcida, como Méïté, Boka e Demel, além dos renomados Eboué e Kolo Touré (todos eles presentes na última Copa). Falta apenas um grande goleiro, já que apesar de não comprometer, Barry fica devendo para antigos titulares como Gouamené (ídolo na conquista da Copa Africana de 1992) ou Tizié (que esteve no mundial de 2006). Porém, nada que abale o favoritismo da Costa do Marfim...

Outra força do continente é Gana, que ao lado do Egito foi a seleção que mais vezes chegou a decisão do torneio. Porém, em sete participações, os ganenses conquistaram quatro títulos, contra seis do rival, que atualmente detém a hegemonia continental. A edição desse ano pode ser uma boa oportunidade de equilibrar as coisas, mas as Estrelas Negras precisarão superar alguns problemas internos se quiserem retornar ao lugar mais alto do pódio (o que não ocorre desde 1982). Recentemente, alguns jogadores não se apresentaram para a disputa de um amistoso (entre eles Essien e Muntari, além de Gyan), o que desagradou o treinador sérvio Milovan Rajevac. Após se recusar a pedir desculpas, Muntari (que atua na Inter de Milão) acabou ignorado na convocação para CAN, o que gerou grande polêmica entre os torcedores. Isso porque o meio-campo ganês também não vai ter a disposição outro de seus destaques: Stephen Appiah, que sofre há um longo tempo com as contusões. Mas nem tudo são problemas, já que Rajevac também conta com jovens revelações presentes na conquista do último mundial sub-20, entre eles o goleiro Daniel Adjei, o lateral Inkoom, o volante Agyemang-Badu, além dos atacantes André Ayew (filho do ídolo local Abedi Pelé), Ransford Osei e Dominic Adiyiah (recentemente contratado pelo Milan). Para liderar essa garotada, o treinador confia na rodagem dos atletas mais experientes, entre eles o já citado Essien (que assume o posto de capitão, mas ainda é dúvida para estréia), o arqueiro Kingson, os defensores Eric Adoo e Sarpei, além da dupla de ataque composta por Gyan e Amoah, todos titulares no Mundial da Alemanha.

Já a participação do Togo nessa Copa Africana de Nações é uma incógnita, ainda mais após o atentado sofrido a dois dias da estréia no torneio. O ônibus que transportava os togoleses foi atacado por rebeldes de Cabinda quando cruzava a fronteira entre Congo e Angola. No episódio, os passageiros ficaram mais de 30 minutos em meio ao fogo cruzado, o que resultou na morte de três integrantes da delegação. Dois atletas também foram atingidos: o zagueiro Akakpo (que joga na Romênia) e o goleiro Obilalé (que atua no futebol francês e necessita de maiores cuidados). Abalado, o país ameaçou retirar-se da competição, mas voltou atrás no último minuto. Como o time vai reagir após esse episódio ninguém sabe, mas é fato que as perspectivas em relação à participação nessa CAN já não eram das melhores. Desde a inédita classificação para a última Copa do Mundo, os Gaviões nunca mais entraram nos eixos e muito disso se deve a desorganização de sua federação local. Após uma campanha irregular nessas eliminatórias, quando quase caíram na 2º fase (diante de Zâmbia e a inexpressiva Suazilândia), superando posteriormente o Marrocos na disputa por uma das vagas na competição continental (em uma chave que ainda contava com Gabão e Camarões), os dirigentes togoleses resolveram demitir o treinador belga Jean Thissen, nomeando em cima da hora o interino Hubert Velud. Para se ter uma idéia, nos dois últimos anos, cinco técnicos passaram pelo comando da seleção. Velud causou ainda mais polêmica entre os torcedores ao ignorar nomes experientes em sua lista, casos dos defensores Nibombé e Tchangai, os meias Olufadé e Cherif Touré, além do atacante Mohamed Kader (atleta com maior número de convocações e gols com a camisa da seleção). A espinha dorsal deverá ser composta pelo arqueiro Kossi Agassa, o defensor Mamah, os meias Romao, Amewou e Salifou (principal referência no setor), além dos atacantes Dossevi e Adebayor (principal esperança de gols).  Entre as caras novas, atenção para Assimiou Touré (do Bayer Leverkusen) e Serge Gakpé (do Monaco).

Complementando o grupo está Burkina Faso, que pode ser considerada a seleção mais inexperiente da chave se comparada aos demais componentes. Sem nunca ter participado de uma Copa do Mundo, o país se animou com essa possibilidade nas últimas eliminatórias, quando foi a grande surpresa do continente. Comandados pelo português Paulo Duarte, os burquinenses surpreenderam a Tunísia com uma das melhores campanhas da 2ª fase, mas deram o azar de cair justamente no grupo da Costa do Marfim na fase final. Não fossem as duas derrotas para os Elefantes, a campanha seria irretocável, já que nos jogos diante de Malauí e Guiné, o país obteve 100% de aproveitamento. Restou como consolo o 2º lugar do grupo e uma vaga na CAN, a sexta participação no torneio continental (nas últimas sete edições, Burkina Faso esteve presente em cinco), onde quis o destino que os Garanhões cruzassem novamente o caminho dos marfinenses. A meta agora é vingar-se do rival e quem sabe superar a 1ª fase, fato que a seleção conseguiu uma única vez (em 1998, quando sediou a competição e terminou em 4º lugar). Apostando em uma equipe ofensiva, Paulo Duarte convocou oito atacantes para essa disputa e confia no faro de gols do matador Dagano para surpreender. E já que o nome de Bancé (que disputa a Bundesliga pelo Mainz) acabou ignorado nessa lista, outros como Yaméogo, Zoundi, Issouf Ouattara ou Yssouf Koné prometem lutar pela segunda vaga do ataque. Pelo meio, Kaboré (volante do Marseille) é quem faz o trabalho pesado para que Pitroipa (meia do Hamburgo) possa desfilar toda sua categoria. Na defesa, destaque para o arqueiro titular Diakité, além dos zagueiros Moussa Ouattara (que retorna a seleção) e Panandétiguiri (jogador do União de Leria).

Grupo C:

Após ficar de fora da última Copa do Mundo, a Nigéria retorna a elite do futebol internacional em 2010 na expectativa de recuperar o prestígio que adquiriu durante a década de 90, quando superou em duas oportunidades a fase de grupos do mundial (94 e 98), além de conquistar uma medalha de ouro olímpica (96). O início da caminhada nessas eliminatórias foi mesmo promissor: melhor campanha da 1ª fase, as Super Águias obtiveram 100% de aproveitamento em seus seis jogos, marcando 11 gols e sofrendo apenas um. Além disso, eliminaram a África do Sul precocemente, tirando do país que abrigará o mundial a chance de disputar o torneio continental. Até então tudo eram flores, mas na fase final os nigerianos não apresentaram o mesmo desempenho e acabaram tropeçando nas próprias pernas ao ceder um empate em casa para a Tunísia nos minutos finais. O resultado obrigava as Super Águias a vencer seu último confronto fora de casa (diante do Quênia), além torcer por um tropeço dos tunisianos contra Moçambique. E não é que o improvável aconteceu e a classificação acabou caindo no colo dos nigerianos?! Nem por isso o treinador Shaibu Amodu tem escapado da pressão e levando em conta o amadorismo dos dirigentes locais, não seria surpresa se seleção mudasse a comissão técnica as vésperas da Copa em caso de fracasso nessa CAN. Apesar de escalar uma equipe ofensiva, o treinador é acusado de não estabelecer um esquema de jogo, deixando a nação a mercê de suas estrelas. Com todos os convocados atuando fora do país, os maiores destaques ficam por conta do goleiro Enyema (considerado o melhor jogador do futebol israelense em 2009), os defensores Yobo e Taiwo (que tem um potente chute de perna esquerda), os meias Olofinjana e Obi Mikel, além dos atacantes Martins (herói da classificação que Amodu insiste em deixar no banco), Yakubu, Odemwingie, Obinna e Kanu (figurinha carimbada na seleção). Na última hora, Eneramo acabou cedendo lugar a Obasi, em um setor que não irá contar com Makinwa (da Lazio) e o contundido Ikechukwu Uche (Zaragoza).

Atual bicampeão africano e maior vencedor na história da competição, o Egito mais uma vez sofreu com a sina de sucumbir nas eliminatórias para o mundial e acabou deixando escapar a classificação em uma tumultuada decisão diante dos argelinos. O fracasso não apenas tirou dos Faraós a chance de estar na próxima Copa do Mundo como pode ter colocado fim a uma das mais vitoriosas gerações do futebol egípcio nas últimas décadas. Alguns nomes importantes serão graves desfalques para o time de Hassan Shehata nessa competição, como os meias Barakat e Aboutrika (que acabaram se contundindo) ou a dupla de ataque formada por Mido e Amr Zaki (ambos do Zamalek), que foi ignorada pelo treinador. Porém, não se pode esquecer a força que o país tem dentro de seu continente, motivo que coloca os egípcios entre os favoritos a mais uma conquista. Na Copa das Confederações do ano passado, apesar de não passar da 1ª fase, a seleção endureceu diante de rivais tradicionais, vendendo cara sua derrota para o Brasil, além de aprontar para cima da Itália. Os maiores trunfos dos Faraós concentram-se na experiente defesa, onde figuram peças importantes como os veteranos El-Hadary (goleiro), Hany Saïd, Gomaa e El Saka (ambos zagueiros), além dos laterais Fathy e Moawad, todos jogando com regularidade na seleção há um bom tempo. No meio-campo, a responsabilidade de ditar o ritmo do time deve ficar por conta do capitão Ahmed Hassan, embora a participação de coadjuvantes como Ghaly e Hosny também seja fundamental nesse sentido. Shawky, que atua no futebol inglês, foi outro atleta que acabou de fora da convocação, para desespero dos torcedores. O ataque é o setor mais enfraquecido, mas ainda conta com jogadores de alto nível, como Zidan (que atua na Bundesliga) e Moteab, que devem formar a dupla titular. Resta saber se o Egito terá forças para faturar mais uma Copa Africana de Nações em sua história...

Correndo por fora, na expectativa de surpreender os favoritos, estão duas seleções emergentes. Uma delas é Moçambique, que sob o comando do holandês Mart Nooij apresentou grande evolução e obteve resultados notáveis nas últimas eliminatórias. Embora o começo tenha sido irregular (principalmente nas partidas em casa), a classificação em um grupo que ainda contava com a Costa do Marfim (além de Madagascar e Botsuana) foi muito comemorada pelos adeptos moçambicanos, que durante muitos anos assistiram seus principais jogadores se naturalizarem por Portugal (Eusébio é um caso emblemático nesse sentido, embora em sua época o país ainda fosse uma colônia lusitana). Na fase final, os Mambas assimilaram as lições e cresceram de produção, dessa vez fazendo valer o fator casa, onde permaneceram invictos diante de seleções tradicionais como Nigéria e Tunísia (além do Quênia), apostando sempre em um corajoso esquema ofensivo. Os resultados não foram suficientes para lutar pela inédita classificação a Copa, mas garantiram a equipe em sua 4ª disputa continental (nos anos 80 e 90 a seleção teve participações discretas no torneio, sendo sempre eliminada na 1ª fase). A base da equipe é formada por atletas que atuam no futebol africano (a maioria joga na liga local e na África do Sul) e os poucos jogadores que atuam na Europa curiosamente não se concentram em Portugal (o defensor Mexer é o único a jogar na Liga Sagres). No gol, Kapango desbancou o antigo titular Marcelino (que sequer foi convocado), enquanto a defesa conta com bons valores, entre eles o versátil Simão Junior, jovem promissor de apenas 21 anos que atua no Panathinaikos. Os laterais Fanuel e Paíto, além do zagueiro Dario Khan, complementam o setor (Miro também pode aparecer no time titular). Pelo meio, nomes como Genito, Hagi e Mano costumam correr para que o habilidoso Domingues (ídolo do Mamelodi Sundowns, uma das principais equipes sul-africanas) tenha maior liberdade para jogar. Mas a grande força de Moçambique está no ataque, onde figuram dois ídolos locais: o capitão Tico-Tico, além de Dario, maior artilheiro e jogador que mais vezes vestiu a camisa de seu país.

A outra surpresa da chave é o Benin, considerado por muitos uma das maiores zebras nas últimas eliminatórias. Sem grande representatividade internacional até então, o país melhorou muito durante a última década, quando conseguiu classificar-se para suas únicas participações na disputa continental. Porém, tanto em 2004 quanto em 2008, os beninenses acabaram eliminados na fase de grupos. A perspectiva é superar esse quadro na atual edição da CAN, ainda mais após os excelentes resultados conquistados nesse qualificatório. Após eliminar Niger, Uganda e a favorita Angola na 2ª fase, os Esquilos caíram em um grupo complicado ao lado de Gana, Mali e Sudão, adversários reconhecidamente mais experientes. Mas dentro de campo, o que se viu foi uma equipe voluntariosa, sem nenhum grande destaque individual, mas apresentando grande força coletiva. Dessa forma, Benin conseguiu impor-se, garantindo o 2º lugar do grupo. O sonho de estrear em mundiais acabou não se concretizando, mas os torcedores já se deram por satisfeitos ao ficar entre os primeiros 60 colocados do ranking da FIFA, a frente de potências do continente como África do Sul e Marrocos. A base da equipe comandada pelo francês Michel Dussuyer (ex-goleiro de Cannes e Nice durante os anos 80 e 90) é composta pelo jovem arqueiro Djidonou (de 23 anos), o defensor Chrysostome (que joga no futebol turco), os meias Ahouéya (do Sion) e Sessegnon (atleta do PSG), além do atacante Omotoyossi (que atua no Metz). Porém não se pode ignorar o serviço de operários como Adenon, Boco, Tchomogo, Ogunbiyi e Mickaël Poté, que também costumam figurar no time titular. Entre as ausências na lista de Dussuyer, o maior desfalque é o de Adjamossi (que joga na Espanha). O treinador ainda tentou convencer Jonathan Tinhan (nascido na França, mas com ascendência beninense) a defender os Esquilos, mas não foi bem sucedido nessa iniciativa.

Grupo D:

Primeira seleção africana a se classificar para as quartas-de-final de uma Copa do Mundo, Camarões nem de longe lembra aquele futebol alegre e o ofensivo apresentado no mundial de 90. Pelo contrário, com um esquema que privilegia a forte marcação, os Leões Indomáveis atualmente fazem valer o vigor físico de seus atletas, mas nem por isso perderam em competitividade. Ainda mais após a chegada do treinador francês Paul Le Guen, que assumiu a equipe em um momento delicado e conseguiu contornar essa situação. Após ficarem de fora da última Copa (perdendo a classificação de forma dramática, diga-se de passagem), os camaroneses (então comandados por Otto Pfister) estrearam bem nas eliminatórias, superando com sobras uma chave que ainda contava com Cabo Verde, Tanzânia e Maurício. Porém, na fase seguinte o time passou a oscilar, acumulando resultados negativos e se complicando diante de Gabão, Togo e Marrocos. Motivos que levaram a cartolagem local a demitir Pfister na reta final da disputa para só depois constatar que o interino Thomas N’Kono não daria conta do recado. Em meio a esse pesadelo, Le Guen assumiu o comando e em pouco tempo impôs sua filosofia de trabalho, conquistando sucessivas vitórias, assumindo a ponta da tabela e garantindo o passaporte para o mundial africano. Apesar de não realizar grandes mudanças na base titular, o técnico conseguiu modificar a mentalidade de seu conjunto, que assimilou bem a proposta do francês. Na baliza, Kameni está entre os melhores goleiros da liga espanhola e é garantia de segurança. A defesa sofreu desfalques importantes com as contusões de dois atletas do Tottenham (o zagueiro Bassong e o lateral-esquerdo Assou-Ekotto), mas ainda mescla a juventude de N'Koulou (que aos 19 anos é um dos mais promissores atletas do Monaco) e a experiência de Rigobert Song (caminhando para a disputa de sua oitava CAN). Enquanto isso, atletas renomados, como Atouba e Womé, parecem fora dos planos. No meio, o veterano Geremi tem a companhia de operários como Alexandre Song (Arsenal), M’Bia (Marseille), Emana (Lyon) e Makoun (Real Betis). O jovem Joel Matip, que joga no Schalke 04 e tem apenas 18 anos, é uma das apostas, embora enfrente problemas burocráticos para se apresentar a seleção. Outro desfalque será M’Bami, jogador do Almería da Espanha. Na frente, Webó é o coadjuvante perfeito para que a estrela Samuel Eto’o (agora capitão do time) possa brilhar. E é confiando nos gols do artilheiro que os Leões Indomáveis sonham em voltar ao topo do futebol africano. O único problema de Le Guen é não ter substitutos a altura de sua dupla de ataque titular.

E se os camaroneses são candidatos ao lugar mais alto do pódio, a Tunísia precisa se cuidar para não ser uma das grandes decepções dessa Copa Africana de Nações. Após a tragédia das eliminatórias, o futebol do país entrou em parafuso e o atual momento é de crise. Comandada por Humberto Coelho, as Águias de Cartago complicaram-se já na 2ª fase, sendo superados pela Burkina Faso e se classificando graças ao índice técnico. Na fase final, os tunisianos caíram na chave da Nigéria (que havia realizado a melhor campanha da fase anterior) e após dois empates frente a esse rival, chegaram à última rodada na liderança do grupo, dependendo apenas de si para garantir a vaga na Copa. Porém, uma derrota nos minutos finais contra Moçambique colocou fim ao sonho do país, que esperava disputar seu quarto mundial consecutivo. O fracasso resultou na demissão de Coelho, substituído por Faouzi Benzarti, que já havia comandado a Tunísia em 1994 e estava na seleção líbia. Apesar de contar com a simpatia dos nativos, o novo técnico iniciou seu trabalho apostando em um processo de renovação. A convocação para o torneio abriu mão de jogadores experientes (como Jaidi, Ben Frej, Jemmali, Nafti e Mnari, que atuam no futebol europeu), além de excluir dois dos principais atletas tunisianos na atualidade: o meia Selim Benachour (afastado da seleção há um bom tempo) e o atacante Chikhaoui (que sofre com as contusões). Outras ausências sentidas serão a de jovens talentos como Belaid e Ben Yahia. Com tantas baixas, os resultados nos amistosos de preparação não foram nada satisfatórios, colocando em dúvida as possibilidades das Águias de Cartago na competição. A esperança recai sobre os pés do zagueirão Haggui e dos integrantes do setor ofensivo: os meias Ben Saada e Darragi, além dos atacantes Jemâa e Chermiti. Será o suficiente?

Quem está de olho em uma das vagas do grupo é a seleção de Zâmbia, que apesar de já ter disputado 13 vezes o torneio continental, nunca conseguiu um título. Além disso, desde 1998 os Chipolopolo não conseguem superar a fase de grupos, caindo precocemente em cinco oportunidades desde então. Nas eliminatórias, a equipe chamou a atenção por concluir a 2ª fase na frente do Togo (presente no mundial de 2006), além de iniciar a fase final obtendo grandes resultados, como o empate fora de casa contra os egípcios logo na estréia e a vitória diante de Ruanda na rodada seguinte, o que lhe valeu a liderança parcial do grupo. Porém, no decorrer do qualificatório os zambianos não apresentaram a mesma consistência (principalmente no ataque, que marcou apenas dois gols), sendo superados por Argélia e Egito na corrida por um lugar ao sol da África do Sul. Nenhuma novidade para uma nação que apesar de possuir relativa tradição no futebol de seu continente, nunca conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo. A expectativa é que agora a seleção faça ao menos valer sua força em âmbito continental. A federação local aposta no trabalho do francês Hervé Renard, que está no cargo desde o início das eliminatórias e tem tido estabilidade para trabalhar, algo raro tanto aqui quanto acolá. Alguns resultados nos recentes amistosos de preparação, como a vitória por 4x2 diante da Coréia do Sul, encheram de confiança o torcedor, cujos principais ídolos são os irmãos Katongo: o meia Felix, que joga no Mamelodi Sundows, além de Christopher, atacante do Arminia Bielefeld. A inspiração dessa dupla vai ser determinante para as chances dos Chipolopolo, que também contam com bons coadjuvantes, casos do goleiro Mweene, os defensores Dennis Banda, Musonda e Mbola (de apenas 16 anos), o meia Kalaba (do União de Leiria), além dos atacantes Jacob Mulenga (que atua no futebol holandês) e Mbesuma (ex-Portsmouth).

Outra grande surpresa dessas eliminatórias africanas foi o Gabão, que surpreendeu na 2ª fase ao se garantir em uma chave que contava com Gana e Libía, além de ser uma das sensações da fase final, quando caiu no “grupo da morte” ao lado de potências como Camarões, Marrocos e Togo. Treinados pelo ex-jogador francês Alain Giresse e apoiados em uma jovem equipe, os gabonenses chegaram a liderar o grupo e sonhar com a inédita vaga ao mundial, mas nos momentos decisivos pecaram pela inexperiência, principalmente diante dos camaroneses, que venceram os dois confrontos diretos e ficaram com a vaga para Copa do Mundo. Mesmo assim não se pode desprezar os resultados obtidos pelos Panteras Negras, que agora pretendem fazer um bom papel no torneio continental. Durante as três vezes em que conseguiu a classificação para CAN (a primeira delas em 94), o Gabão só conseguiu superar a 1ª fase uma única vez (em 96, quando caiu nas quartas) e desde 2000 nunca mais tinha disputado o campeonato. Ao contrário do que muitos imaginam os grandes trunfos da equipe não se resumem ao faro de gols do atacante Daniel Cousin (que joga no Hull City). Giresse também deposita muita confiança em valores como seu arqueiro Ovono ou os defensores Ecuele Manga, Akouassaga e Moïse Brou, todos atuando no futebol francês, assim como os meias Kessany e N’Guéma. O treinador ainda aposta na rodagem de Mbanangoye e Moubamba, atletas mais experientes e que costumam ditar o ritmo entre a defesa e o ataque. Na frente, a maior arma é a velocidade de novatos como Roguy Méyé e Pierre-Emerick Aubameyang (duas das grandes revelações do país), embora Mouloungui e Fabrice Do Marcolino costumem ser opção frequente para o 2º tempo.

PS: Até a publicação deste conteúdo, a federação togolesa ainda não havia decidido definitivamente se abandonava (ou não) a disputa da Copa Africana de Nações 2010.

Partager

Faça um comentário!

(Opcional)

(Opcional)

error

Importante: comentários racistas, insultas, etc. são proibidos nesse site.
Caso um usuário preste queixa, usaremos o seu endereço IP (38.107.191.117) para se identificar     

Todos os comentários desse artigo:
Guia da Copa Africana de Nações 2010:

  • victorinonetto Qua 13 Jan 2010 04:12
    Saudações, galera!!!

    Agradeço demais pela força. É importante o respaldo de gente como Joss e Alsan, que acompanham o futebol africano de perto e sabem como é confusa aquela realidade.
    Assim como os comentários do Michel e do Yuri, irmãos sempre presentes por aqui!!! Apesar de não concordar com a postura da FIFA, Michel, confesso que não fiquei surpreso. Não dá p/ esperar muita coisa dos caras mesmo!!! Yuri, quanto ao Matip (que é irmão do Marvin Matip, que joga no Colônia, além de primo do Job, ex-Middlesbrough) parece que a pressão do Schalke 04 e do Magath também influenciaram bastante na indefinição!!! O engraçado é que o nome dele continua constando na lista oficial com a camisa 21.

    Grande abraço a todos!!!

  • Yuri mailto

    Ter 12 Jan 2010 17:34

    O Joel Matip já recusou o convite de Paul Le guen, alegando que não sente-se camaronês, pois nasceu na Alemanha.

    Tem menos de 20 anos, ainda há tempo para decidir. Embora as chances dele no Nationalelf serem quase nulas durante toda sua vida, creio eu. Mas todos nós temos motivos particulares.

  • Michel Costa mailto

    Ter 12 Jan 2010 14:24

    Excelente trabalho, Victorino. Alguns detalhes eram novidades pra mim.
    Bom, agora é certo que Togo está fora da CAN. E, pelo que andei lendo, o futebol pífio jogado pela Costa do Marfim pode estar ligado diretamente ao baque sofrido com o acontecido.
    Agora, como tiveram coragem de usar Cabinda como sede? E mais, porque a FIFA só lamenta e não faz nada?
    Lamentável...

    Abraços.

  • Alsan Matos mailto

    Ter 12 Jan 2010 14:16

    Parabéns pelo texto. Muito bom mesmo.

  • Riccardo Joss

    Seg 11 Jan 2010 17:02

    Excelente guia da CAN. Talvez o mlehor guia da CAN de toda internet. Parabéns!