Em 2010, a Copa São Paulo de Futebol Júnior chega a sua 41ª edição, consolidando-se como torneio mais tradicional da categoria, embora o prestígio que sempre caracterizou a disputa diminua a cada ano. Com a criação do Campeonato Brasileiro Sub-20, a Federação Paulista resolveu padronizar a Copinha desde 2008, admitindo apenas atletas com até 18 anos. Mas apesar da cobertura competente realizada por alguns veículos especializados, como o site Olheiros (clique aqui e aqui), a sensação é de que o campeonato não possui a mesma visibilidade e nem empolga o torcedor como em um passado recente. Aliás, o romântico sonho de chegar à vitrine do futebol nacional, que todo garoto projetava no certame, cedeu lugar aos interesses de empresários, preocupados principalmente com negociatas e transações vantajosas. O que já explica muita coisa...
Um dos pontos que prejudica (e muito!) a Copa São Paulo é seu regulamento, que precisa solucionar a vida de um torneio cada vez mais inchado. A edição desse ano conta com 92 participantes, divididos em 23 chaves, onde além dos líderes, classificam-se os nove melhores colocados por índice técnico. As equipes representam estados de todo o país. Mesmo assim, os critérios para a escolha dos participantes não é a ideal (veja mais) e clubes tradicionais acabam cedendo lugar para times “voltados à formação de jogadores” (curiosamente, sempre bancados por algum empresário). Em 2010, Paysandu, Sport, Náutico, Santa Cruz, Criciúma e América de Natal foram algumas das equipes ausentes, enquanto os paulistas Pão de Açúcar, Olé Brasil ou Primeira Camisa (cujo proprietário é o zagueiro Roque Júnior) estiveram na disputa. O nome de outro participante, o Desportivo Brasil Participações Ltda (clube de Barueri) define bem essa realidade. A participação de equipes estrangeiras (uma prática comum durante as décadas de 80 e 90) foi retomada, embora a campanha do saudita Al-Hilal não tenha sido empolgante e assim como todos os gringos que já disputaram a taça, os asiáticos caíram ainda na primeira fase (confira).
A falta de estrutura e fragilidade de alguns participantes também contribui para a queda do nível técnico. A diferença entre alguns times é gritante e pode ser medida através de resultados bizarros, como a goleada de 14x0 aplicada pelo Santo André no Santana do Amapá ou os 8x0 impostos por Paulista e Portuguesa respectivamente a Taubaté e Atlético/RR. Aliás, o clube de Roraima mostra que nem os clubes que deveriam dar exemplo estão livres do amadorismo e das falcatruas existentes nas categorias de base. Maior campeão profissional em seu estado, o Tricolor da Mecejana viu-se envolvido em denúncias feitas pelos seus próprios jogadores. Eles acusam o treinador João Araújo de forçá-los a algumas atividades em troca de chance no time e também de fazer corpo mole na última rodada diante da Portuguesa. Segundo o empresário de 18 dos 22 jogadores do grupo (o time de Roraima sequer possuía uma base com atletas locais, recrutando o elenco em São Paulo e Minas Gerais a poucos dias da disputa), o técnico ainda cobrava uma mensalidade de R$ 500 por atleta (clique aqui). O grande problema é que tais informações só vieram à tona porque João Araújo resolveu comprar uma briga com a equipe do Globo Esportes, proibindo os meninos de dar entrevistas. A resposta veio rapidamente. Mas a questão é: será que se todos os participantes fossem investigados com o mesmo afinco, mais irregularidades não seriam descobertas? Outra denúncia esteve relacionada ao América de Minas Gerais, que estaria utilizando um jogador (Aldeflan) com idade adulterada, segundo denúncias do Americano do Maranhão (confira). Justiça seja feita, esse foi mais um furo de reportagem da galera do Olheiros. A Federação Paulista de Futebol agora investiga o caso, que reascende a polêmica sobre os “gatos” no futebol nacional.
Em campo, a evolução do preparo físico distância ainda mais os garotos. Em muitos jogos foi comum assistir o equilíbrio parcial se desfazer em meio às etapas complementares, onde cãibras vitimaram constantemente meninos que ainda não se tornaram atletas. As equipes com maior estrutura se sobressaíram nesse quesito, embora o excesso de preciosismo por parte de alguns de seus jogadores evidencie a influência negativa da supervalorização precoce. Nem por isso a fase de grupos deixou de apresentar algumas surpresas e gratas revelações. Além de diversas histórias pitorescas que reforçam ainda mais o caráter mambembe do futebol nacional e da Copa São Paulo (veja mais). Mesmo assim fica a sensação de que é preciso resgatar certos valores, comuns a essência do futebol e ainda mais importantes que os interesses alheios envolvidos na modalidade atualmente (principalmente nas categorias de base). Antes de formar o atleta, o ídolo, é preciso formar o cidadão, o homem. Em minha visão, já seria um grande passo na luta por um futebol mais digno!









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