Desde que decidi me tornar um
jornalista, sempre tive muitas dúvidas e incertezas em
relação ao meu futuro... Sobre os meus caminhos... A
minha história... As minhas crenças!!! Tinha
dúvidas sobre a distância entre o que eu era e aquilo
que eu queria ser!!! A faculdade, teoricamente, me ajudaria a
fortalecer algumas idéias que facilitariam o entendimento
sobre meu próprio espelho, tudo aquilo que está a
minha volta e tudo o que essa profissão nos reserva...
Infelizmente (ou não!!!), esses conceitos muitas vezes foram
ignorados, graças ao formalismo acadêmico
instituído há tanto tempo e aplicado vigorosamente
por alguns professores... Mas o instinto e a sinceridade sempre me
afastaram desse tipo de gente e me levaram a seguir a corrente que
caminha na contra-mão dessa vertente. O que aprendi foi uma
conseqüência da convivência junto a pessoas como o
mestre Oswaldo Miguel... Ou simplesmente, Niva!!! O negro, magro e
alto que anda pelos corredores da faculdade há algum tempo.
Que é o que é em qualquer lugar do mundo e por isso
caminha de cabeça erguida, conversando com todos,
demonstrando sorrisos sinceros além da alegria,
satisfação e prazer em estar diante de alguém.
Um mestre que transparece a sinceridade nos olhos e faz de suas
palavras, verdadeiras manifestações!!! O cara que
não diz o que você quer escutar, mas o que você
precisa ouvir!!! As lições que aprendi com essa
figura ajudaram a moldar a face daquilo que me tornei... A
acreditar até o fim nos meus sonhos e lutar com todas as
forças por eles!!! Porém, a maior das
lições que aprendi com o mestre é que a vida
é como um jogo de futebol. Muitas vezes ao invés de
se lançar ao ataque desesperado por um gol, é melhor
tocar a bola no meio-campo, praticando o bom e velho “arroz
com feijão”, esperando a hora certa para arriscar um
chute ou emendar um contra-ataque!!!
A imensa satisfação
que sinto por caminhar ao lado de pessoas como o Niva, divido com
vocês nesse texto, chamado “Um dia ainda chego
lá....”, que foi escrito por ele mesmo em 2000 e que
narra a história desse grande “capitão”.
Um "Reforço de Peso" que
merece muito mais do que a camisa 10...
Ainda chego
lá...
Niva Miguel
Ainda na infância ganhei o apelido de Niva, nunca soube
explicar bem o porque desse nome. Costumava dizer que era por causa
da semelhança entre o meu verdadeiro nome Oswaldo e Nivaldo,
daí ficou Niva, abreviatura de Nivaldo. Entretanto, quando
mais velho vou ficando mais a incerteza vai
crescendo.
Filho de um lustrador
de móveis, depois técnico de laboratório, e de
uma empregada doméstica, depois enfermeira, passei boa parte
da minha infância na rua, enquanto meus pais trabalhavam.
Vivia jogando futebol nos terrenos baldios e sonhando com o dia em
que trocaria esses velhos campinhos pelos estádios famosos
do Brasil. Criança sonha com coisas que quando cresce
não vê jamais. Nesse período, tomei contato com
o primeiro jornal na minha vida. Meu pai que gosta de futebol,
comprava todos os dias a Gazeta Esportiva. Eu lia alguma coisa
quando ele terminava de ler.
Na escola, cursei o
primário sem muito brilhantismo. Era um aluno normal, um
pouco tímido, que gostava de sentar no fundo da classe. Eu
gostava mesmo era de esporte. Tanto que terminei o primário,
fiz até a 6a. série , e abandonei os
estudos para ajudar meu pai no trabalho.
Só voltei
à escola com 19 anos para terminar o ginásio,
terminei e cursei o 2o. grau, fiz Técnico em
Edificações, mas não gostava. Dos 17 aos 26
anos, vivi grande fase no esporte, praticava atletismo, era
velocista e defendia Piracicaba em competições
oficiais. Também fui jogador de futebol profissional,
não cheguei a jogar nos grandes estádios como sonhava
quando criança, mas era respeitado pelos adversários,
isso era o suficiente para mim. Até que uma
operação no menisco do joelho esquerdo encerrou minha
carreira.
Em 83, era
funcionário público municipal com quase dez anos de
profissão, não via futuro se continuasse como estava,
resolvi pedir as contas e cuidar da minha vida. Foram dois anos
trabalhando ora aqui ora acolá, até que em 85 conheci
umas pessoas e fui trabalhar como contra-regra na companhia de
teatro Circo Voador, aqui em Piracicaba. O contato com esse grupo
me despertou de que era necessário fazer uma faculdade,
afinal, a maioria deles ou já tinha terminado ou estava
cursando alguma coisa.
Na fase do teatro
comecei a escrever algumas poesias, lia um pouco de tudo e gostava
de muita conversa, mas gostava mesmo era de ouvir. Por isso, estava
indeciso se faria vestibular para Jornalismo ou para Psicologia.
Como o curso de Psicologia era noturno e o tempo mínimo para
conclusão era de cinco anos, optei por Jornalismo que
poderia ser concluído em quatro
anos.
Para poder pagar a
faculdade consegui um emprego de carteiro, também não
gostava do que fazia, aliás, detestava. Mas trabalhar era
preciso, e assim dei o melhor de mim durante nove meses subindo e
descendo ruas e avenidas do centro de Piracicaba. No final de 1986,
com 30 anos de idade, fiz inscrição para o vestibular
da Unimep. Havia decidido que se não passasse faria
cursinho. Estava há seis anos sem estudar. Passei!
Começava uma nova fase na minha
vida.
Trajetória
Acadêmica
– O primeiro semestre na
faculdade, em 1987, foi um verdadeiro deslumbramento, pelo glamour
de estar na faculdade, pelos amigos e, sobretudo, pela oportunidade
de ser alguém: um jornalista.
Não tive nomes
famosos na área como professores para me espelhar, mas sabia
que teria que me dedicar ao máximo. Estava apostando minha
vida nesse curso. Em uma prova de Filosofia após minha
avaliação, o professor Heitor Gaudence, me chamou e
disse: “Não te conheço, mas vejo você
todos os dias com aquela bolsa dos Correios nas costas entregando
cartas, para mim você não gosta do que faz, tenho a
impressão que sua vontade era jogar essa sacola no rio,
colocar fogo ou fazer qualquer coisa – era tudo aquilo que eu
realmente sentia – vou lhe dar um toque – com a palma
da mão direita levantada na altura do meu rosto –
quando você ver ou ouvir qualquer coisa, lembre-se que sempre
existirá alguma coisa atrás daquilo que estão
te passando”. Isso foi uma observação
importante que nunca mais esqueci.
Durante o curso fui um
aluno do fundão, mas atento às aulas. No Projeto
Experimental, no último semestre da faculdade, desenvolvi
uma pesquisa intitulada: “O papel do negro na imprensa
piracicabana”, no qual produzi um vídeo, com
duração de 12 minutos, um programa de rádio,
com 20 minutos, uma reportagem jornalística e uma
monografia. Com isso, ganhei primeiro lugar e o prêmio Losso
Netto de Jornalismo.
O vínculo com a
faculdade me possibilitou participar como pesquisador/bolsista do
NPDR –Núcleo de Pesquisa e Documentação
Regional da Unimep – Universidade Metodista de Piracicaba.
Realizamos a pesquisa: “A fala, o texto e a imagem negra na
região de Piracicaba”. Ainda como pesquisador/bolsista
do NPDR, participei do projeto: “13 de Maio –
Memória e Cidadania”, no qual, além de
pesquisar, produzi um vídeo de 15 minutos, contando os quase
cem anos da história do mais tradicional clube da
raça negra de Piracicaba e
região.
Em 92, já era um
jornalista profissional e trabalhava no Jornal de Piracicaba como
repórter. Também participei como bolsista do CNPq
através do NPDR, do projeto: “60 anos da Rádio
Difusora”.
Trajetória
profissional
– Foram cinco anos como
repórter do Jornal de Piracicaba. Comecei trabalhando no
Jornal de Domingo, um suplemento com reportagens especiais, tendo
como chefe a jornalista Ana Lúcia Kazan, uma grande
professora, que me batizou com o pseudônimo de Niva Miguel.
Um dia depois de ter escrito uma reportagem não muito boa,
ela me disse: “Niva, vou lhe dizer uma coisa, para ser um bom
jornalista é preciso ter feeling, e feeling você tem,
só precisa ler alguns livros – e me passou um monte
deles – acredite no seu potencial que um dia você vai
chegar lá”.
Dois anos depois, Ana
Kazan deixou o jornal e comecei a andar sozinho na
profissão. Comecei a fazer, até então,
reportagens inéditas em quase um século do jornal.
Fazia reportagens nas quais eu encarnava personagens. Com isso, fui
indigente, sorveteiro, entregador de gás, catador de
papelão, saltei de pára-quedas, presidiário
etc. A preocupação era mostrar para os leitores as
questões sociais, os problemas e ao mesmo tempo colocar
pessoas humildes no jornal de domingo que pelos meios convencionais
nunca seriam notícias. Essas reportagens tinham boa
repercussão em Piracicaba e região, recebia cartas,
telefonemas e era reconhecido e cumprimentado nas
ruas.
Paralelamente, fazia
assessoria de imprensa para a Uniodonto e para a
Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas
– Regional de Piracicaba (APCD). Enquanto repórter do
Jornal de Piracicaba recebi alguns prêmios pela
produção de reportagens. Da Câmara Municipal de
Piracicaba recebi dois, em novembro de 97, Diploma de
Mérito, esse prêmio é recebido por
personalidades que se destacam junto à comunidade negra
piracicabana e Moção de Aplausos, em outubro de 95,
pela reportagem ‘Um amor diferente na noite
piracicabana’, reportagem sobre os travestis piracicabanos.
Em março de 97, recebi do Sindicato dos Metalúrgicos
de Piracicaba, Rio das Pedras, Saltinho e Região, um
cartão de prata pela reportagem: “Na fila do INSS: que
humilhação meu Deus”, reportagem que mostrou as
dificuldades das pessoas que precisam desse órgão
público.
Os cinco anos que
passei como repórter do Jornal de Piracicaba foram bons, mas
também não havia futuro. Não existia um plano
de carreira na empresa, não havia possibilidade de crescer
enquanto profissional. Por isso, resolvi pedir a contar e ir
trabalhar em outro lugar. Fui para a cidade de Americana ser
repórter no jornal TodoDia. Uma experiência boa, um
ritmo forte de trabalho, conheci gente nova, aprendi como se
trabalha em um grande jornal, mas foram só três meses
e voltei para Piracicaba para trabalhar em um semanário de
amigos, A Folha Piracicabana, que iria começar a circular. O
jornal teve vida curta, cinco meses e depois fechou. Passei,
então, a fazer quase tudo (elaborava pautas, fazia
entrevistas, fotografava, redigia e revisava) no Jornal do Bairro,
que circulava no bairro Vila Rezende. Paralelo a isso,
também dei aulas de comunicação para alunos do
curso Técnico em Turismo, no Senac de
Piracicaba.
Fazendo o jornal de
bairro, voltou à antiga idéia de cursar um mestrado e
fazer um estudo sobre o assunto. Comecei a amadurecer o projeto,
enquanto saia do jornal para ser assessor de imprensa do prefeito
de Piracicaba, Humberto de Campos. Trabalhei na prefeitura de 1998
a agosto de 1999, quando já estava na metade do curso e
ganhei bolsa de estudo.
Agora, aqui estou
tentando cumprir mais uma etapa da minha caminhada. Sinto-me uma
pessoa de sorte por vir da onde vim e chegar aonde cheguei,
iluminada (guiada) pelos bons espíritos – acredito em
Deus e em outras coisas invisíveis – e tentando
transformar mais um sonho em realidade, acreditando no meu
potencial e que um dia ainda chego
lá...
_________________________________________________________________________________
* E chegou
mesmo!!!
Atualmente o mestre Oswaldo
Miguel caminha para seu Doutorado. E podem ter certeza: Ele
ainda chega lá...
Comentários